segunda-feira, outubro 23, 2006

Uma véspera

Quatro da tarde. Fazia meia hora que Eduardo saíra para trabalhar. Despedira-se, beijando-me na testa e, ao chegar à porta, acenou-me com um olhar meio penoso, meio vazio.

Havia um clima esquisito entre nós após uma conversa no banco. Faltavam dois dias para o ano novo, e ele comentara que desejava comprar uma roupa preta para a virada.

- Preta? - Espantei-me. - E o clima de paz, confraternização? Não significa nada para você?

Ele chamou-me boba, argumentando que paz somos nós que fazemos. Por que, então, nunca estávamos em paz? Ele não se esforçava muito para agradar-me, ou, ao menos, poupar-me de comentários cortantes. Ultimamente, tudo vinha sendo razão de críticas: as minhas roupas roxas e laranjas, as músicas da Marisa, meus brincos indianos, as minhas unhas quadradas, que ele preferia redondas, as colegas lésbicas do trabalho...

Eu vivia me perguntando por que ele permanecia comigo, já que tantas coisas o irritavam, e por que tanta insatisfação junta, após quatro anos de relacionamento. Ademais, já que não tínhamos filhos e não éramos casados, bastava-lhe fazer as malas e partir. Era bem simples, não? Mas e eu? Por que permanecia com ele após tanto questionamento e insatisfação?

Como eu estava mudada! Aquele homem conseguira dominar-me por completo. Atendia a todos os seus pedidos, vestia-me "melhor", mantinha a cor natural dos cabelos, só ouvia Marisa quando ele estava fora, trabalhando ou pescando, aturava a mãe dele com educação e paciência, apesar das constantes indiretas. Onde eu havia me perdido, que agora só enxergava humilhação ao redor? Eu havia chegado num ponto em que, se ele dissesse que a salvação para nós era a "abertura" do relacionamento, eu estaria aceitando de bom grado.

Por que eu, uma mulher bem sucedida, inteligente, bonita, sentia-me tão dependente daquele homem? Eu sabia que precisava fazer algo aquele dia. Tomei um longo banho, programando o dia seguinte, a minha vida...

Peguei uma mala e comecei a separar as roupas, romances, perfumes, calmamente, pensando na história deles, das ocasiões em que os comprei ou ganhei. Pus uma música da Simone, "Começar de novo", e cantava, fechando os olhos vez ou outra. "Começar de novo e contar comigo/ vai valer a pena já ter te esquecido ..."

Uma lagrimazinha caíra furtivamente... Eu me habituara a somente me libertar na intimidade do meu quarto vazio, dos meus livros, das minhas músicas, sonhando ao som daquelas vozes doces. Ali eu podia ser quem quisesse: atriz, cantora, política, filósofa, desinibida... Ali é que eu fazia o meu mundo, a minha realização. Por que neguei a mim mesma o direito de viver? De ser livre? Não consigo entender.

Pus uma música mais animada, para embalar a arrumação da mala. Às sete ela estava pronta. Decidir sonhar um pouco mais, assistindo àquele filme tão querido, a que o Eduardo jamais conseguira assistir inteiro, porque sempre dormia.

Começo a ficar sonolenta. Eduardo chegaria à uma hora. Era melhor guardar a mala no armário e dormir na cama. Precisava estar descansada para o dia seguinte. Além disso, não queria que o Edu me encontrasse dormindo no sofá.

Aquela havia sido uma noite mágica, cheia de sonhos lindos, de aventuras, eu, livre e independente, mundo a fora.

- Dorminhoca! - Era Eduardo me chamando às oito.

- Já arrumou a mala?

- Já - respondi.

Era dia 31, e o Ano Novo seria comemorado na casa da mãe dele.




Um comentário:

Carol disse...

Adorei seu conto, muito bem feito. Continue que vc tem jeito pra coisa.
Bj.