domingo, junho 24, 2007

A persistência da memória


A persistência da memória
Sempre fui meio obcecada pelo quadro “A persistência da memória”, de Salvador Dalí, ainda que não o compreendesse direito. Aqueles relógios derretidos me deixavam intrigada. Quando descobri que se tratava de uma metáfora para o desejo do homem de flexibilizar o tempo, pensei: brilhante!

Há muito que me minha relação com o tempo é meio delicada. Eu, que sempre amei o devaneio lento, a abstração, a apreciação contemplativa, fui arrastada pelo tufão da vida moderna.

A modernidade nos aprisiona num labirinto de obrigações, tarefas, prazos, fazendo-nos reféns dos relógios. É uma rotina automatizada - acordar cedo, trabalhar, estudar, cuidar da casa, ir ao médico, a reuniões, pagar aquilo no dia tal.... Agendamos, inclusive, o divertimento.

O tempo foi otimizado, principalmente, na mídia, com informações bombardeadas em ritmo alucinante, fragmentando cada vez mais a nossa percepção. Nesse panorama, pouco espaço resta para a memória, que diante de uma grande variedade informativa, tem de ceder lugar. E aí se perdem experiências repletas de significado e sentimento, coisas gostosas da infância, causos engraçados, perfumes, cores, lugares, músicas que, outrora, cantávamos sem parar e agora cortamos um dobrado pra lembrar um único versinho.
Sou uma saudosista perdida na pós-modernidade. Vivo agarrada às minhas lembranças e experiências, através de agendas, álbuns, cartas, blogs. Queria poder sentir a vida ao sabor das sensações, dos desejos, das necessidades. Odeio o esquema burocrático da vida.

Pelo menos, ainda posso degustar minhas lembranças, sentir-lhes o doce sabor de coisa boa que, a despeito do tempo, ainda não me abandonou.

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