sexta-feira, novembro 23, 2007

Por que os jovens devem ler Harry Potter

A corrida pelo último livro da inglesa J.K.Rowling, Harry Potter e as relíquias da morte está dando o que falar. Fãs do mundo todo saíram numa corrida enlouquecida em busca de um exemplar, a fim de descobrirem o desfecho da saga do bruxinho mais querido do mundo. O que será que atrai tantas mentes juvenis a essas famigeradas páginas?
Há um considerável número de pessoas que despreza ou simplesmente não nutre interesse nenhum pela série. Os mais intelectualizados não vêem muita novidade nos elementos místicos do enredo, embasado no folclore anglo-saxão. Os mais preguiçosos alegam que os livros são muito grandes. Contudo, acredito que caiba uma análise mais aprofundada do fenômeno Harry Potter.
Em primeiro lugar, há que se considerar que o público a que os livros se destinam é o infanto-juvenil e Rowling buscar atender tal proposta criando um mundo mágico que transborda criatividade, cor e detalhe. Cada castelo, cada criatura mágica, cada bruxo especificamente é descrito ricamente e criado de maneira bastante original. O leitor é convidado a visualizar cada cena, a dar vazão à imaginação, a embarcar numa verdadeira viagem fantástica na medida em que percorre as páginas. A narrativa construída pela autora avança além dos acontecimentos e adentra os sentimentos, anseios, medos, alegrias, excitação de cada personagem, dando uma concepção bem ampla da cena descrita. Rowling, estrategicamente, encerra os capítulos no ápice das cenas, para que o leitor tenha a curiosidade aguçada e, logo, não tenha coragem de deixar a leitura para mais tarde, podendo alcançar, enfim, o tão esperado desfecho.
As tramas giram em torno da velha luta entre o bem e o mal, mas não é isso que dá graça aos livros. O universo adolescente nos é apresentado através dos dilemas que todos nós vivemos: o primeiro amor, a aparência esquisita da puberdade, o desajuste social, a rebeldia, o cotidiano escolar com seus altos e baixos, a perda da inocência, a busca pela própria identidade, a amizade verdadeira, a esperança num mundo melhor. A grande amizade entre Harry, o desajeitado Rony e a brilhante Hermione é algo que todo jovem deseja e Rowling a apresenta desprovida de interesses e máscaras sociais, isto é, sincera, como deve ser. Deste modo, acabamos nos identificando, inevitavelmente.
Os temas sombrios, muito criticados pelos mais conservadores, são na verdade educativos. O tirano e cruel Voldemort, que quer dizimar os, como ele chama, “sangue-ruins” (bruxos mestiços ou filhos de não-bruxos), nada mais é que a metáfora de algumas personagens históricas, conhecidas muito bem por suas atrocidades e intolerância. A crítica ao preconceito racial e social permeia toda a obra.
O herói, Harry Potter, órfão desde a primeira infância vive o desafio de, mesmo só, sem família que o ampare em sua juventude, manter-se no caminho do bem, além de ter sua coragem testada em diversos momentos. Harry é um herói complexo, carente, inseguro, solitário, atormentado por fantasmas da infância, mas que teima em perseguir seus ideais, ser bom, combater as injustiças, ainda que isso custe a sua vida.
Os religiosos não têm com que se preocupar, pois os livros não fazem apologia à bruxaria. A magia é descrita como algo novo, curioso e, por diversas vezes, engraçado, mas sempre pelo viés da irrealidade: varinhas mágicas, vassouras voadoras, pinturas interativas, raízes selvagens, árvores lutadoras, um mundo fantástico que em nada lembra rituais de vodu, feitiços malignos ou trabalhos macabros regados a sacrifícios sangrentos.
A mensagem que a estória transmite é positiva, a da amizade verdadeira, a do orgulho em ser como se é, a da tolerância e respeito ao próximo, a das boas escolhas em detrimento das ruins. E permite um enorme aprendizado no que diz respeito ao folclore inglês, ao vocabulário e à ética. Sim, à ética! Pois encorajar, nesses tempos caóticos em que vivemos, jovens mentes a conviver em harmonia e com respeito, em nome de um mundo justo, de forma divertida e empolgante, é o melhor que um livro de ficção infanto-juvenil poderia fazer. Então, que leiam o Harry Potter!