terça-feira, dezembro 04, 2007

Ensinando a pensar

Semana passada, fui assistir à mostra sobre o cineasta chileno Alejandro Jodorowsky e fui convidada a uma verdadeira jornada reflexiva. Diferente da maioria das coisas que já assisti na vida, os filmes de Jodorowsky expressam muito pela metáfora e pelo choque causados pelas imagens. É um estilo em nada óbvio, que desconcertaria muito espectador desavisado, dado o esforço de reflexão que nos exige. Mas essa crônica não nasce para avaliarmos o cineasta em questão. Ela vem para fazer pensar sobre esse exercício mesmo: o de pensar.

Eu, em meus iniciais quatro anos de magistério, vejo-me impelida a analisar diariamente meus métodos pedagógicos. E o que isso tem a ver com o exercício de pensar? Ora, tudo! Ensinar indivíduos é, antes de passar-lhes a tocha do saber ou caligrafar belamente em seus juízos vazios – as famigeradas tábulas rasas – ensiná-los a pensar. Não que já não pensem, mas o pensamento é uma atividade que se aprimora continuamente pelo exercício constante. É como se houvesse níveis de pensamento e o meu maior objetivo é fazê-los pensar além.

Esse “pensar além”, não estimulado por aqueles que detém as rédeas da sociedade, tornara-se uma verdadeira pedra filosofal na história da humanidade: quem a alcança é capaz de operar verdadeiros milagres!, e foi cristalizado na prática pedagógica como um “pensar igual”. Estimula-se o estudante a decorar ou internalizar conhecimentos, repetindo-os, sem estimulá-lo também a transformar o meio com tais conhecimentos. É claro que já há um sem número de estudiosos da pedagogia combatendo essa pratica há muitos anos. O desafio é manter-se fiel a essa postura diante do difícil cotidiano escolar. Já falei aqui, algumas vezes, sobre os dilemas dos docentes, como jornadas múltiplas, baixos salários, condições precárias etc. Acontece que não é tão difícil estimular o aluno a botar as caraminholas para funcionar. E, então, cito apenas a justificativa mais simples de todas: o aluno é o primeiro a reclamar da mesmice das aulas. E não são necessárias estratégias mirabolantes para fazer da aula um desafio ao pensamento. Basta pensar.

Não pensem vocês que o professor não é vítima fácil de suas próprias armas. Um professor que não estimula a reflexão elaborada em seus alunos provavelmente tampouco a cultiva. Porque a criatividade é fundamental na elaboração das idéias e exercícios e na adaptação dos mesmos à realidade de suas turmas. Não é uma prática que demanda mais trabalho braçal do professor, mas intelectual sim. Não adianta apresentar uma expressão de conhecimento elaboradíssima e esperar que o aluno a desvenda magicamente. A preguiça em (re)pensar as estratégias pedagógicas é o pior dos pecados do docente. O profissional deve ter consciência de que o raciocínio se desenvolve mais efetivamente de forma associativa, partindo daquilo que o indivíduo pensante já conhece bem. Deste modo, o desafio do professor é propor a resolução de situações-problema contextualizadas (e não hipóteses absurdas desvinculadas da realidade), que partam sempre do conhecimento de mundo que o aluno já tem, sem desprezar-lhe a cultura que já traz de casa. E expô-lo a situações diversas, que demandem esforço de pensamento variado e gradativo.

Educar é remover o aluno do lugar cativo, fazê-lo conhecer o novo, incitá-lo à descoberta, torná-lo apto a aprender por si, movido pelo autodesafio. Desta forma, estaremos formando indivíduos críticos e independentes, aptos à complexidade da vida e à aprendizagem contínua, em vez de seres abreviados por uma educação curupaca, que só lhes faz repetir o que lhes fora dito previamente. Assim, eles poderão assistir a um filme de Jodorowsky, por exemplo, sem que se sintam perdidos.

Um comentário:

claudia disse...

Ensinando a pensar...
Texto inteligente e escrito numa linguagem cativante. Neste momento me sinto impelida a refletir a respeito da minha própria prática educativa, e o que é isso? uma oportunidade de aperfeiçoamento! obrigada.