quinta-feira, maio 31, 2012

Opção

A mesa de Natal estava quase arrumada. Faltavam apenas o castiçal e os adornos florais para que estivesse pronta, e Carolina trazia-os de uma caixa no meio da sala, distraída e satisfeita. Dispunha os últimos itens com esmero, ajeitando-lhes as posições, harmonizando os espaços, sorrindo e cantarolando mentalmente.

Ao finalizar a tarefa, jogou-se preguiçosa no sofá, uma perna para cima e outra para baixo, e pôs-se a admirar sua obra prima.

Mesa lotada, todo mundo rindo. Tio Antônio contando piadas e as crianças, alegres, derramando farofa e refrigerante na toalha das mesas. Marcelo troca olhares de cumplicidade comigo enquanto rimos das anedotas. A vela de pitanga acesa exala um cheiro amoroso que me traz calma.

A sala é invadida por Cida, a mãe de Carolina, que vem correndo da cozinha como que em fuga. Atrás dela, Luís, seu esposo, vem chutando vasilhas de plástico, uma caixa de panetone e algumas frutas, vociferando contra a cônjuge.

Carolina salta de súbito, retirada de seu momento contemplativo, e ajeita-se no sofá, juntando as pernas e unindo as mãos. Olha cinco segundos para a cena que se lhe apresenta e baixa a cabeça em desconcerto. Passa a encarar o carpete.

Caminho num campo de girassóis desses de filmes, onde o vento bate, sacudindo-me os cabelos e o vestido claro. Visto um vestido claro, desses com pequenas flores e rendas nas bordas. Meu cabelo solto brilha  e balança, mas não fico despenteada. Corro passando os dedos nas pétalas e miolos, e sinto o frescor do vento afagar-me a pele do rosto e o canto dos olhos.

Uma bomboniére é derrubada com força no chão, deixando cacos de vidro e doces espalhados, numa bagunça colorida. Carolina faz que vai catá-los, mas a mãe estende-lhe a mão em sinal de que não se mova. Braços e saliva cruzam o ar entre o casal. Carolina agora mira uma bola na decoração da árvore.

Marcelo aparece por entre os girassóis. Fica parado, me olhando. Paro de correr e sinto uma mornidão percorrer-me o corpo. Encaminho-me em sua direção lentamente. Ele sorri e vem ao meu encontro, também com vagar. Poderíamos andar um na direção do outro até o fim de nossas vidas.

Um estalo ecoa no cômodo, como se ecoasse dentro da própria Carolina, que pula, dessa vez mais alto, mais sobressaltada. Os olhos arregalados e a boca aberta com violência parecem abrir passagem para o ar em fuga. Um tapa.


Um tapa na cara da mãe, agora estirada por sobre o sofá, logo a seu lado, parece preencher todo o tempo, intermitentemente. Esta soluça com a mão na boca, a pele vermelha em manchas, que se misturam ao avermelhado filtro que encharca a visão de Carolina.

Gritos e gemidos perdem cada vez mais a coerência, enquanto Carolina comprime os lábios e encara a mãe caída. Seu peito arfa convulsivo, parecendo querer-lhe abandonar o corpo. As entranhas ardem e se comprimem feito chiclete rosa mastigado. A náusea que precede o vômito faz Carolina temer que a força lhe abandone, deixando-a caída de bruços, olhos vidrados na direção do chão, sem que antes tenha tido a oportunidade de alcançar Marcelo.

Alcançamo-nos finalmente. Nesse momento, olhamos um nos olhos do outro, com muita calma. Não há pressa. Fecho os olhos e sinto-lhe o perfume invadindo-me os poros, as células, os brônquios. Ele vive em mim mais que nunca e sorrio. Ele também sorri e não há pressa.

Luís sai em disparada batendo a porta da rua. Cida deixa-se cair mais, ofegando entre murmúrios confusos. Carolina se recosta no sofá, recobrando o ar lentamente. As passadas do ponteiro do relógio dão-lhe o ritmo para rearranjar o coração. Um resto precário de saliva desce-lhe pela garganta, arranhando, mas não há mais perigo de vômito.

Ao olhar uma segunda vez para mãe, Carolina sente-se vazia, de uma leveza extrema. Um calafrio perpassa-lhe a nuca num temor de que de fato algo de vida tenha-lhe deixado há pouco. A falta de algo que a preencha  intimida o interno, que parece se torcer em nó ressentido.

Estende a mão para a mãe, que a aceita, molhando-a, apertando-a. Não se olham. Encarando novamente a mesa, Carolina amarga o gosto cru da opção de agora. Acovardada, escorrega sutilmente pelo sofá, enquanto a outra lhe acaricia a mão melada, suspirando consigo mesma.

Marcelo e eu paramos para sentar na borda de um desfiladeiro. Venta muito e o Sol se põe. Ficamos em silêncio. Fito a tarde rubra misturada à dança de meus cabelos e quase o esqueço ao meu lado. A poeira voa bastante e me arranha de leve a pele. Com as costas curvadas, assento, ouvindo a brincadeira da poeira com o vento. Não sorrio mais, mas não há pressa...

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