terça-feira, setembro 09, 2008

Delírio


Não há salvação para a morte. Mas hoje descobri que nasci. O até então era ensaio. Era uma provação. Um estágio, um quase. Morri hoje, pela manhã, depois do café, encarando as cortinas translúcidas valsarem ao bolinar do vento. Eu queria sugar a luz. Ela era tão atraente... E foi para ela que nasci – arfando fresco, as costas surradas . Dei fim ao rubro de seus dedos. Gozei. Gozei inexperiência para a luz suplicante. Fiz-me sua noiva devotada, peito descoberto, chagas, vulva, fendas suspirantes. A partir de hoje sou oca e clara. Em mim, só o silêncio imóvel e morno. Meus pêlos saúdam o pó iluminado. Sou vertente. A ferida fresca e transitória se prepara, nupcial. A cicatriz nova, pura e brilhante que se projeta é a boca sedenta que beijará a luz. Por isso afundo e deito, faço-me nula. Sorvo felicidade. Sorvo o gozo do silêncio, e da luz. Desfaço-me para brilhar.

Pela
pele.
Pelo
pêlo,

imobilizar.

F l u t u a r .

E em silêncio, somente e puramente, reluzir.

12 comentários:

J.F. de Souza disse...

Eita...

Yara disse...

Delírio:
pela pele, pelo pêlo, pela palavra.
Belo.

Gabriele Fidalgo disse...

Morrer e renascer.
Existe sensação melhor do que a de nascer em si mesmo?

Beijos!

Bruna Mitrano disse...

A intertextualidade: eu falei de morte e você falou de nascimento, que são, na realidade, a mesma coisa (muda apenas o olhar).
Muito intenso esse texto. Gostei do toque de erotismo, contrasta bem com o texto anterior. Aliás, seus textos têm essa característica: nunca parecem repetitivos. Quando eu crescer vou ser assim!rs
Beijo!

Salve Jorge disse...

Se o seu delírio
É o meu colírio
Não é de todo
Um martírio
E sim seduz
De todo modo
Essa luz
Que conduz
Essa morte
Tão forte
Que será esporte
Renascer...

bossa_velha disse...

ARRE!

Tati disse...

Gostei muito do que vc escreveu.
A propósito parabéns pelas suas publicações. Vc tem muito mais experiência na escrita do eu. =)
Em breve te mando mais receitas.

beijos querdida

Leandro Jardim disse...

bela prosa quase poema!
gostei muito desse "verso": 'Gozei inexperiência para a luz suplicante'

beiJardins
[ah: e me senti lisonjeado com seu comentário lá no meu post :) ]

bossa_velha disse...

é que sempre me surpreendes um pouco ou um muito. e não sou boa com as palavras, não sei dizer. mas sei vir aqui e ler. não é ótimo?

Eurico disse...

Lubricamente belo, teu texto, ó noivinha da luz! Receba minha admiração e meu encantamento!
Abraçamigo e fraterno.

Véu de Maya disse...

Luz/véu/silêncio/abismo=vida?
procura intensa...é isso o teu texto...

bjinho

Delfim peixoto disse...

deliradamente delicioso