terça-feira, setembro 02, 2008

Tardes eternas


Perdi a mornidão interna. Há muito que não experimento algo como aquela tranqüilidade, aquele conforto que compartilhávamos em nossa adolescência ociosa. Encontro diário marcado no teu quarto, depois do almoço, depois do colégio. Mochila largada no chão, tênis virado, e debatíamos o Revolver, tão esquisitos e desajustados que éramos. Esquisitos que se entendiam, não valia a pena conversar com mais ninguém. E comíamos pipoca, e compúnhamos canções incompletas, e demorávamos duas horas pra resolver as equações de segundo grau do trabalho de casa. E como eu amava os seus desenhos! Conjugava seus verbos em troca de caricaturas minhas que você fazia meticuloso na biqueira do meu all star. Éramos uma dupla tranqüila em mútuo acordo silencioso. E calmo.
E naquele dia você me olhou sorrindo, dizendo pra eu soltar o rabo de cavalo, que meu cabelo era bonito, e eu não consegui conversar o resto da tarde, pensando que você me amava, e fiquei repetindo e cantando Eleanor Rigby compulsivamente pra não ter que te responder. Nunca soube o que você pensou daquela tarde. Daquele dia em diante me tornei ansiosa. Ruminava incessantemente aquela ânsia pesada e ácida de tentar te compreender. Porque aquela tarde não se resolveu, por minha culpa, pois eu só sabia falar de músicas e letras e deveres.
Mas aí você apareceu de mãos dadas com aquela menina da outra turma, a menina boazinha e tímida, campeã da feira de ciências, mas que não conhecia os Beatles. Não que fosse chata, mas do que vocês conversavam se ela não conhecia os Beatles? E a gente só falava de Beatles, mas depois não falou mais. Eu passei a odiar a Matemática e os verbos, e minha caricatura foi se apagando, um pouco pelo tempo, um pouco pela sujeira. De raiva, cortei curtos os cabelos, e até hoje lembro da sua cara de susto no corredor, numa manhã qualquer.
Minhas tardes acabaram, porque o que veio depois não eram tardes. E o que eu fui depois não era calma. Tudo foi vindo diferente, garotos e bandas, ora monótonos, ora impetuosos, por vezes arrebatadores. Mas a mornidão, essa eu nunca mais senti. A vida ficou fugaz, barulhenta, nervosa...
Hoje, tomando café numa livraria, fui arrebatada da leitura que fazia por esses versos há muito guardados. Ah, look at all the lonely people, os versos que entoei desconcertada, reencontravam-me ali, solitária. E o que senti não foi morno, mas quente, ardido, uma saudade desmedida das tardes despretensiosas, lentas e satisfeitas, onde nada era mais valioso que esses versos ou os seus desenhos meticulosos.
Encolhida, dei uma golada grande, abaixei a cabeça, fechei os olhos, simulando com o café quente que me escorria garganta abaixo a mornidão de outrora, brindando em segredo e cantando baixinho, Ah, look at all the lonely people... Ao silenciarem os violinos, somente o amargor ressoou na boca – o do café, o da ânsia, o da perda de tardes eternas.

14 comentários:

F. Reoli disse...

Aline, como pai de um jovem de 15 anos, foi inevitável não ficar emocionado e contemplativo com suas palavras. Consegui enxergar um pouco dele, da namorada e voltar no tempo, o meu tempo, onde as tardes eram assim e as lições, na realidade, foram absorvidas muito além das obrigatórias e curriculares. Você tem um jeito especial de escrevr, é como se as palavras tivessem o dom de se transformar em mãos, virando páginas e mais páginas da vida, sem ordem cronológica, onde passado e presente se fundem numa sensação pelo qual, nunca estamos libertos: a saudade!
Mesmo com o pé doendo, foi impossível não vir o computador pra te deixar o meu beijo e saborear as tuas palavras.
Beijos

Versos Insensatos disse...

por um momento, lendo esse texto, senti saudade dessas tardes mornas que não vivi, mas reconstrui no meu coração... o milagre da boa literatura. Beijos.
Felipe.

Gabriele Fidalgo disse...

Sou suspeita para falar sobre os Beatles? rs A sua escrita prende a atenção desde a primeira palavra até o último ponto. 'Prende' de forma leve. Compartilhamos da mesma paixão por eles esntão. :)

Beijos!

Line Lily disse...

Depois de ler isso só há uma coisa a fazer: suspirar...
Lindo demais, parabéns, por ser você, pelo talento, pelo conto!!!
Que você não pare nunca!
Beijinhos!
ps.: eu sou a única pessoa que teve adolescência depois dos 20, hehe.

Ricardo Soares disse...

adorei o termo "mornidão interna"... kiss

Anônimo disse...

Eu nunca fui um fã específico de beatles, mas sempre tive um troço por Eleanor Rigby. O conto é legal, suas palavras são, como nas crônicas, mornas e simples, o que tornou o sentimento triste uma melancolia gostosinha rs
bjinhos

Anônimo disse...

ah, quem escreveu esse coment. acima fui eu, Renan Ji!

Alê Quites disse...

Salve!

Aline Pergon disse...

Amei! Revivi momentos da minha adolescência nas suas palavras e agora estou afogada em nostalgia por sua culpa!rsrs
... e a gente segue pensando em tudo que poderia ter sido...
Bjo!

Delfim peixoto disse...

Gostei de a ler... e convido para uma dança
Bom FDS

B.I.A.N.C.A Feijó disse...

Que belo, Aline!

E, nada melhor que um bom café para acompanhar esses momentos, não é mesmo?!

B.E.I.J.O.S

Bruna Mitrano disse...

Que coisa mais linda, Aline!
Me fez lembrar tanta coisa...
Dizem que o escritor (ou poeta) é um fingidor. Concordo com Pessoa, claro. O fato, no entanto, é que os melhores textos são aqueles que têm muito de quem escreve (não que esse deixe de mentir, afinal, isso é pré-requisito). Vi você aí. Me vi também, quando adolescente. E um fundo musical a la Across the Universe (o filme).
Texto leve, com cheiro, temperatura...

On The Rocks disse...

oi,

faltou opções.

stones, de vez em quando, cairia bem.
dylan...

rs rs

tenho um blog também. on the rocks: www.buenasrocks.blogspot.com

até mais,

tarcísio do disco.

NiNe disse...

Aline, xará, quase chorei! REmeteu-me a tudo que um dia vivi aos 16 anos na minha quente cidade norte-mineira. E lá se vão alguns anos. Que saudade!! O tempo sempre me deixou assim, meio nostáugica, meio triste.