quarta-feira, dezembro 17, 2008

O pulo


O filósofo francês Andre Gorz se dizia um escrevedor. Isto é, alguém que precisa escrever e o faz sem pretensões de publicar ou significar algo. Para ele, um escritor se consolida como tal (no que diz respeito ao ofício e não ao status), após muita prática como escrevedor. Eis um microtexto meu, cujo resultado me remeteu diretamente à afirmativa de Gorz. Não sei o que é isso. Então resolvi classificá-lo como "exercício de escrevedora":


A gente pensa que nada de extraordinário vai nos acontecer mais nessa vida, e vem um lance desse que descaralha com a nossa sobrevivência. Eu estava ali, resignado na minha tranqüila e inofensiva rotina, até que, sei lá, impelido por uma turbulência repentina, sabe, como uma dor de barriga daquelas que por pouco você se borra todo? Então, não sei o que me deu, arrisquei, apostei todas as fichas, me joguei do penhasco e caí numa tela do Dalí. Cara, eu tremi de medo, tremi mesmo, minhas entranhas ficaram leves, quase ausentes. Que pânico! Eu estava vulnerável em território desconhecido. Mas, aí, cara, deu certo! Eu consegui, cheguei lá, atingi o alvo, certeiro como flecha. Que dormência! Que descrença! Alguém me acorda! Que leve o ar da estratosfera...

11 comentários:

On The Rocks disse...

que sensação, hein!?

legal.

obrigado pelo carinho, viu?

as poesias estão saindo aos poucos, em breve novidades no la verga.

bj

fred disse...

Continue escrevinhando, Aline, está muito bom. Cair em uma tela do Dalí é o surrealismo dentro do surrealismo. Ótimo mesmo.
Beijos

Marina disse...

Escrevedora. Gostei, é assim que vou me chamar também. Uns gostam de chamar de escritora ou poeta... Não concordo. Como podem me comparar aos verdadeiros escritores e poetas do mundo? Falta tanto ainda!

Adorei o texto. Parece que ele conversa com a gente e nos dá certa identidade, fazendo-nos rir.

Passarei mais vezes por aqui. Beijos!

Andréia Alves Pires disse...

adorei. :)

Leandro Jardim disse...

seu exercício me soou como se fosse alguma fala de um personagem ao estilo Nick Hornby (não sei se conhecesse...)... e isso é um elogio :)

beiJardins

Bruna Mitrano disse...

Adorei, amiga!
Não disse que você consegue passar numa boa, sem perder a qualidade, de um estilo pra outro?
É a primeira vez que leio um texto seu com tantos traços de oralidade. O uso do abjeto também. Gostei muito!
Acho que há muito eu tô perdida num quadro de Dali!rs

V.H. de A. Barbosa disse...

Olá, Aline!

Obrigado pelo comentário lá no Zaratustra tem que Morrer, vou procurar ler o "Acerca da verdade e da mentira", aliás, você sabe onde posso encontrá-lo?

O seu texto me fez lembrar do final daquele filme chinês O Tigre e o Dragão, em que a garota pula no penhasco, pois haviam lhe contado que se desejasse muito algo e pulasse no penhasco, seu sonho se realizaria. Lógico que o pensamento popular já consolidou isso em formas menos poéticas como "quem não arrisca não petisca" e "o que é um peido para quem já está cagado?", mas é sempre bom ver uma verdade descrita nas palavras de uma "escrevedora".

Abraços!
P.S.: sobrenome legal!

Elis disse...

É, viver, muitas vezes ultrapassa qualquer racionalidade. Bom texto. Obrigado pela visita e volte sempre Aline.
Bjos.

Miguel Barroso disse...

Belas e sábias palavras.



Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Line Lily disse...

É de perder o fôlego. Estou com a música "Atrás da porta" na cabeça e seu texto me fez lembrar dela novamente. Deve ser por causa do desespero, da dormência, da dor em saber que se está vivo, que se ama! Deu para entender algo? beijinhos!
Feliz Natal e Feliz Ano Novo!

Taiyo Omura disse...

é o abismo...