quinta-feira, janeiro 19, 2012

Viagens paralelas



Ser uma suburbana escondida na roça e que mora bem longe do trabalho tem lá suas vantagens. Somando-se ainda a minha patente inabilidade na direção, que me relega ao uso de transportes públicos, deparo-me com boas horas de ócio nas quais posso treinar mente e espírito.

Em viagens que oscilam de uma a três horas de duração, conforme o "temperamento" do trânsito, entrego-me à felicidade nada clandestina de devorar livro após livro. Deixo o charme clariceano de flertar com as leituras pelo adiamento de lado e me rendo à fome pollyanesca de aproveitar o que seriam torturantes horas de tráfego num exercício de turbinação das ideias.

Veja bem: que faria eu se morasse em local mais dignamente próximo ao trabalho? Acordaria mais tarde? Dormir é pra fracos! Passearia com o cachorro? Sou uma pessoa dos gatos! Assistiria à tv? (...) Iria à praia dar um mergulho? Só dá coliformes na água... A resposta menos jocosa e mais provável seria navegar na internet, o que já faço em tempo considerável morando na puta que pariu. Eu seria uma pessoa com muito menos leitura, ouso dizer, porque uma vez transpassada a soleira da porta de casa, surgem roupas a lavar, caixas de areia a limpar, pelos de gatos a varrer, louças, panelas e, principalmente, um irresistível e quentinho sofá com controle e notebook ao alcance da mão.

Fico pensando que os  mais sortudos que eu leem porque são muito disciplinados (e por isso mesmo foram capazes de arrumar um emprego perto de casa), ou são uns pobres torturados, desprovidos de trânsito, divididos entre aproveitar as inúmeras possibilidades do tempo livre e a consciência de que ler é preciso.

Digressões ilógicas à parte, o fato é que nessas viagens intermináveis de ônibus, com os mais peculiares coadjuvantes, vou construindo uma história interna, rica, feita de retalhos de leitura, inferências e reflexões. Uma história só minha, oculta sob a mesmidade dos dias de uma garota que acorda cedo, pega o ônibus de sempre, abre um livro e inicia uma viagem paralela que os demais passageiros e as pessoas lá fora não podem ler. Um Bildungsroman sem muitos altos e baixos, mas que me enternece, me suaviza, livrando-me de ser a vilã na história real dos outros.

Quem dera todo o mundo pudesse encarar uns bons quarenta minutos diários de tráfego com um livro nas mãos...

Um comentário:

lil disse...

Tem toda razão. Desde que passei a trabalhar perto de casa, mal tenho lido. Não por não gostar, mas por falta de disciplina. A última vez que li um pouco foi quando precisei passar algumas horas dentro de um ônibus, e, por incrível que pareça, me senti até mais viva.
Morar perto do serviço tem suas vantagens quando se tem alguma disciplina e sabe aproveitá-las. Eu... bem, eu apenas durmo. :(