sexta-feira, julho 27, 2012

Poema em prosa: um formato que recusa rótulos



Forma muito recente, sobretudo quando comparada com outras cujas origens ou cujos antepassados remontam aos primórdios da criação literária, o poema em prosa carece de uma coesão formal e temática que o especifique e o diferencie satisfatoriamente em relação às outras manifestações literárias – isto é, que o estabeleça como gênero autônomo. Se, por um lado, grande parte dos críticos atuais partilha a idéia base de Suzanne Bernard, segundo a qual “o poema em prosa é um gênero distinto: não um híbrido a meio caminho entre a prosa e o verso, mas um gênero particular de poesia” (BERNARD, 1959, p. 407), por outro, os seus estudos confrontam-se com sérias dificuldades quando se trata de encontrar parâmetros classificativos unitários, capazes de recobrir a generalidade dos variados textos que se agrupam sob a designação de poema em prosa.
Tal constatação poderá, então, explicar a escassez, mesmo nos nossos dias, de estudos dedicados à busca e à determinação da especificidade do poema em prosa como um todo. E, ainda, que essas obras sejam, tão freqüentemente, alvo de contestações e de críticas que as acusam de serem ou redutoras em excesso, ou, pelo contrário, abrangentes em demasia.
É o que ocorre com a ambiciosa obra de Bernard, que é, ainda hoje, o ponto de referência principal de todos os estudos acerca do poema em prosa, mas à qual se aponta (como faz Tzvetan Todorov, no ensaio “A poesia sem verso”) os limites de seus critérios de especificação global; assim acontece também com a generalidade dos textos que pretendam determinar traços comuns dos poemas em prosa pertencentes a autores diversos. Deste modo, a situação dos estudos específicos sobre as características essenciais e os objetivos do poema parece continuar a ser aquela que Michael Riffaterre aponta em “Semiótica da poesia”:

Os estudos sobre o poema em prosa se restringem, geralmente, a analisar os textos que se apresentam como tal. (...) Eles chegam mesmo a mostrar em que se diferem foneticamente do discurso literário em geral, e chegam a definir os princípios que caracterizam o poema em prosa. (RIFFATERRE, 1983, p. 148)

A dificuldade de descrever o poema em prosa provem, em grande parte, da própria expressão que o designa. Desde o início, tal “gênero” afirma se mover não nos limites de uma mera estratificação genérica, mas antes nos terrenos extremamente escorregadios e flutuantes das noções básicas de poesia e prosa, o que implica que nele estarão em jogo todos os dados que intervêm no campo da criação literária. Tentar entender o poema em prosa exige reavaliar conceitos de escrita poética, os objetivos que ela persegue, as técnicas e os processos que pode utilizar, a diferenciação (ou não) de uma prosa poética em relação a outras prosas, dentro ou fora da literatura etc.
Foi esse desejo de aprofundar a verdadeira essência do poético e de testar a resistência da sistematização literária clássica que, no século XVIII, lançou as bases para o surgimento do poema em prosa. É essa motivação ambiciosa e contestatória que continua a fazer dele uma forma em constante mobilidade e em variadas manifestações.
Assim sendo, aquilo que de mais específico e indiscutível se pode dizer do poema em prosa redunda na tautologia com que Henri Meschonnic se confronta: “O poema em prosa é um poema e ele é em prosa. [...] Parte das palavras e do conhecido. Empacamos aí. A parte desconhecida do poema em prosa permanece no desconhecido.” (MESCHONNIC, 1982, p. 612, tradução nossa ).
A própria idéia freqüentemente aceita de que o poema em prosa é um gênero distinto e autônomo pode revelar-se traiçoeira, ou, pelo menos, passível de controvérsia. Pelo diálogo que vai travando com outros gêneros que lhe são próximos e com os quais muitas vezes é confundido, e, sobretudo, por equacionar todas as questões no largo espaço da escrita em geral, o poema em prosa contesta, fortemente, a eficácia e a funcionalidade de um sistema genérico tal como nos habituamos a considerar em nossa tradição literária.
Essa parece ser sua principal e mais contrastante vocação: a de combater incessantemente qualquer estatismo ou tentativa de classificação definitiva. Nascido sob o signo da liberdade, o poema em prosa foi sempre o arauto da contestação e do movimento. Toda vez que julgamos poder fixá-lo, ou de alguma forma rotulá-lo, ele escapa por entre as definições, apresentando-nos novos textos que nos obrigam a rever antigas questões.
Assim sucedeu no século XVIII, quando a expressão “poema em prosa” revolucionava os cânones pré-estabelecidos e rígidos da criação poética. Nesse contexto, o poema em prosa era considerado um absurdo de realização impossível (uma vez que os conceitos de poesia e de prosa se excluíam mutuamente), ou então, era tomado por um híbrido defeituoso que não encontrava lugar no claro e organizado sistema genérico do classicismo.
Tal como outros gêneros, o romance também precisou de um lento e gradativo processo de afirmação para ser reconhecido com seriedade. O caso do poema em prosa, no entanto, mostrava-se mais delicado, uma vez que pressupunha a ligação íntima de dois termos tradicionalmente tidos como opostos e inconciliáveis.
Hodiernamente, já não temos a consciência do quão paradoxal e contraditória possa ser uma expressão como “poema em prosa”, habituados que estamos à idéia de que a poesia não implica necessariamente a escrita em verso. Contudo, sempre que nos debruçarmos sobre o poema em prosa, acabamos por nos deparar com esse espírito de contradição que lhe é inerente. Assim, para Suzanne Bernard, “ele se baseia na união de opostos: prosa e poesia, liberdade e rigor, anarquia destrutiva e organizadora da arte... daí a sua contradição interna; daí as suas antinomias profundas, perigosas – e férteis; daí a sua perpétua tensão e dinamismo” (BERNARD, 1959, p. 434). Seguindo a mesma linha, Riffaterre afirma que “o que caracteriza o poema em prosa é o fato de que seu surgimento contém em germe uma contradição dos termos” (RIFFATERRE,1983, p. 157), e Todorov, centrando-se no exemplo elucidativo de Baudelaire, vê nos seus poemas em prosa “uma forma adequada (uma correspondência) para uma temática da dualidade, do contraste, da oposição” (TODOROV, 1987,  p. 70).
Sendo assim, a rebeldia, que foi se acentuando ao longo de século XVIII, e ainda nas primeiras décadas do século XIX, contra a obrigatoriedade exclusivista de um código de escrita (o verso), não passava senão de uma primeira manifestação da literatura moderna em busca de novas experimentações e transgressões contraditórias.
À medida que foi se desenvolvendo, o poema em prosa demonstrava que outras junções novas eram ainda possíveis, uma vez que os dois conceitos base sobre os quais se apóia não param também de assumir novas facetas e de sugerir novas interpretações. Quando, já no século XIX, se começou a afirmar uma prosa poética baseada no ritmo musical e harmonioso da frase e dos parágrafos, os poemas em prosa de Baudelaire vieram apontar a velha questão da verdadeira essência da expressão poética, apresentando uma prosa que ele pretendia lírica e musical, muito embora, “sem ritmo e sem rima”. E quando se busca a idéia da poeticidade já não tanto na harmonia e no ritmo musical, mas no trabalho simbólico das palavras e na expressividade das imagens (a poiesis), novamente o poema em prosa se transforma, concretizando-se em textos que recusam esses processos – por exemplo, com o recurso de uma prosa aparentemente despojada de valor expressivo, na sua nudez estilística e na sua sintaxe linear, que, por sua vez, recoloca a questão da diferença entre a prosa literária e a não literária. Ou então, quando a poesia parece se identificar essencialmente com a expressão lírica, o poema em prosa revela-se como um veículo de narratividade ou ironia crua.
O que se revela mais importante no poema em prosa é a sua inesgotável capacidade de fazer refletir a respeito da poesia e da prosa e de quantos mais conceitos forem intervindo na seara literária. O poema em prosa existirá enquanto for possível desafiar o estado de ordem do universo literário. Ele propõe, acima de tudo, a idéia de liberdade, ou de libertação, como motor da criação literária.
Conseqüentemente, a possibilidade de se determinar e de se conhecer a essência formal constante e genérica do poema em prosa vê-se comprometida. Funcionando por sucessivas contradições paradoxais, o poema em prosa vai fazendo também sucessivas e incessantes recusas, o que implica que não possa ser classificado senão através da exclusão, através não daquilo que é, mas daquilo que não quer ser. O fato de se tratar de um poema em prosa não determina rigorosamente nada, uma vez que essa prosa pressupõe variadas características e finalidades, tão moldáveis quanto as pressupostas pelas noções de poema e poesia. Deste modo, dizermos que determinado poema é um poema em prosa significa dizer que ele opera algum tipo de contestação contra o que é usual em literatura, e que ele é, principalmente, um poema em não-verso, ou em não-ritmo ou em não-rima, conforme exemplificação de Riffaterre (RIFFATERRE, 1983, p. 161).
É também nesse sentido que Benoît Conort vê o poema em prosa na genealogia, como contestação na noção de gênero, como pulverizador do sistema genérico, o poema em prosa apresenta-se como “limite de todos os gêneros e como gênero não absoluto” (CONORT, 1992, p. 54).
Obrigando, assim, os estudos acadêmicos a um constante retorno aos primórdios e pondo constantemente em xeque tudo aquilo que na literatura se tomava por certo ou indiscutível, o poema em prosa torna-se não somente um lugar de liberdade, mas de conscientização da escrita. Isto é, o poema em prosa exige uma escrita que se assuma em todas as suas possibilidades expressivas e que tire o máximo partido delas, ainda que (ou sobretudo) utilizando os mais inesperados recursos ou aqueles que de início pareciam mais ineficazes para exprimirem o poético.

BIBLIOGRAFIA: 

BERNARD, Suzanne. Le poème em prose: jusqu’à nos jours. Paris: Librarie A.-G Nizet, 1959.

CONORT, Benoît. “Le poème em prose au carrefour de la modernité: problématiques”. In: Anais da UTAD, vol,4, n.1, dez. 1992.

LIMA, Luís Costa. “A questão dos gêneros”. In: _________ Teoria da Literatura em suas fontes. 2.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983.

MESCHONNIC, Henri. Critique du rythme. Lagrasse: Ed. Verdier, 1982.

RIFFATERRE, Michael. A produção do texto. Trad. Eliante Paiva. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

__________. Sémiotique de la poèsie. Paris: Le Seuil, 1983.

SANDRAS, Michel. Lire le poèm em prose. Paris: Dunod, 1995.

STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais de poética. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975.

TODOROV, Tzvetan. Os gêneros do discurso. Trad. Elisa Angotti Kossovitch, São Paulo: Martins Fontes, 1980.
___________ . “Poética e crítica”. In: A poética da prosa. Trad. Maria de Santa Cruz. São Paulo: Martins Fontes, 1979.

VADÉ, Yves. Lês poèmes em prose et sés territoires. Paris: Belin, 1996.




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