segunda-feira, outubro 15, 2012

Exultação incendiada de 'A face do fogo'


 colher em riste 

a humanidade é uma colher em riste 
fico à sua espera 
de boc A berta 
— faminta — 
colho somente o ferro / trinco os dentes 
encolho minha indignação pela saliva.



Quando Beatriz Bajo estreou em 2010, o fez queimando. Incendiou a cena com sua agulha quente a tatuar versos explosivos recém aterrisados de constelações outras.

Sua Face do fogo revelou um milagre de profundo florescimento linguístico, através do qual a alma se materializa escorrida em sangue ABO+++. Isso porque suas hastes-fósforos lançam a faísca do encontro da prosa com a poesia, dos temas espiritual e carnal, do som com a imagem. Explosão! 

Excede o texto de Beatriz em quadros intensos, entorpecentes, lago turvo de perdição onde veios tantos se traçam, significados se bifurcam, formas se delineiam, e nos situam ante o pote secreto da riqueza poética - faz brilhar em arco a íris.



Transmutado em água-viva clariceana, o eu-lírico de A face do fogo manipula os malabares em chamas dos ímpetos sensório-criacionais, erigindo uma linguagem única, de verbalidade pré-consciente, que se marca, inchada em bolha, e que, uma vez estourada, inunda de luz a leitura.

Deixa queimar...

"é que me livro
pelas riscaduras na pele
despudorando o verso
ventre"


"cada beijo é como comer borboletas
para que as matizes de dentro se libertem, se debatam
no assanhar das asas"

"vou esmiuçando o que more em mim em horas de partos silenciosos que gritam do útero primeiro... meu ventre meus ventos... assim desembocam!"
  
Serviço:
A face do fogo
Beatriz Bajo
119 páginas
Annablume (coleção [e] editorial )

Dados da autora:
Beatriz Bajo é poeta, editora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são a face do fogo (SP, 2010), : a palavra é (PR, 2010) e domingos em nós (PR, 2012). Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/).

Um comentário:

Anônimo disse...
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