quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Charles Baudelaire, o pai da poesia moderna



Le règne de Baudelaire n'est pas fini; il recommence.
(André Gide)


Charles Baudelaire era o arquétipo do poeta moderno. Embriagado, doente, endividado, desnudava as mazelas do mundo através de seus versos. Esse parisiense, nascido em 1821, foi não só um dos principais poetas malditos, mas ainda o precursor da poesia moderna.

Os poetas malditos eram assim chamados porque não se adequavam ao estilo de vida vigente na sociedade francesa da segunda metade do século XIX, e porque faziam questão de se distinguir dos demais indivíduos através de hábitos exuberantes e, muitas vezes, destrutivos.

Nesse sentido, Baudelaire era um espécime bastante representativo. Tendo perdido o pai biológico aos seis anos, o escritor jamais conseguiu estabelecer um relacionamento sadio e afetuoso com o padrasto, um rígido militar. Sentia-se oprimido e carente do afeto da mãe, subjugada pelo austero esposo. Aos dezenove anos, já frequentava a boemia, onde contraiu sífilis e conheceu a amante de toda a vida, a atriz Jeanne Duval. As dores advindas da doença faziam com que abusasse das drogas e dos remédios, vício que nunca abandonou. Ele, inclusive, frequentava as reuniões do Clube dos Haxixeiros de Boissard - experiência que lhe serviu de base para escrever Paraísos Artificiais (1860), livro no qual explora o potencial criador sob efeito do ópio e do haxixe.

Ao atingir a maioridade civil e fazer jus à herança deixada por seu pai, revela-se um verdadeiro esbanjador, dissipando quase a metade de sua fortuna, ao longo de dezoito meses, com obras de arte, roupas caras, jogatina e amantes. 



Era um esteta. Vestia-se como um vetusto senhor inglês, portando bengala, e falava de maneira empolada. Rapidamente, identificou-se com a iconoclastia do dândi (aquele que exalta sua diferença, sua riqueza intelectual, e que não tem medo de exibir publicamente seus sinais externos). A família interveio em seus excessos, designando um curador para lhe controlar as finanças e  as mesadas. Isso, no entanto, não o impediu de continuar contraindo dívidas com hotéis, mulheres e quinquilharias antigas. O poeta passou a vida fugindo dos credores.


O INOVADOR

Em literatura, Charles Baudelaire integrou um grupo de escritores herdeiros do Romantismo, que buscava romper com essa tradição através de uma nova linguagem artística. O escritor desprezava a subjetividade exagerada e inaugurou um artifício poético que serviria de base a inúmeros escritores que viriam depois dele. Trata-se do lirismo da persona. Para o poeta, a escrita deveria revelar emoções transformadas ou fingidas, conforme as diferentes máscaras (personagens) adotadas. Esse recurso foi largamente explorado por Fernando Pessoa ("o poeta é um fingidor") e por Ezra Pound.

Baudelaire também tratou de inserir o profano na poesia. Alma inquieta e conturbada, o autor do polêmico As flores do Mal (1857) olhava com reservas para a era do progresso, entrevendo na modernidade uma morbidez subjacente que sua sensibilidade aguçada não era capaz de tolerar. Baudelaire previra a degeneração contínua de seu mundo e buscara expiar as covardias da época em seus textos. Nesse sentido,  sentia-se atraído por tudo o que fosse fraco, arruinado, mortificado, órfão. Seus poemas angustiados trazem à baila o feio, o riso e o cômico, assim como o abjeto e o desagradável.

Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,
Dali saíam negros bandos
De larvas, a escorrer como um líquido grosso
Por entre esses trapos nefandos.
("Uma carniça")

Sua primeira coletânea de poesia, As flores do mal, gerou frisson na sociedade parisiense. Os poemas nela contidos tratam da angústia de ser e de viver, apelam sucessivamente a Deus e a Satã, celebram o êxtase e a luxúria, os arrebatamentos da carne e seus tormentos. O livro foi considerado indecente e rendeu ao poeta um processo por ultrajar a moral pública. O jornal Le Figaro descrevera o livro, à época, como "odioso" e "abismo de imundícies". Baudelaire e seu editor foram condenados a pagar multa e a excluir seis poemas do livro, dentre os quais "A que está sempre alegre", reproduzido parcialmente abaixo.

(...)
Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora voluptuosa soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu seio perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como em êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

O processo lhe rendeu notoriedade e fez com que fosse defendido por figuras eminentes, como Flaubert. Curiosas, muitas pessoas buscaram obter a edição proibida antes que ela fosse retirada de circulação.



PEQUENOS POEMAS EM PROSA

Uma das maiores contribuições de Baudelaire para a literatura moderna foi a instauração do poema em prosa,  estilo poético muito popular na França. Baudelaire ansiava em compôr textos repletos de lirismo, mas ao mesmo tempo sem verso, rima ou ritmo. Textos cuja força se apoiasse na oscilação das perspectivas, na variação das atmosferas, das tonalidades. Textos cujo andamento fosse modulado pela manipulação da própria estrutura prosaica, da extensão dos sintagmas em consonância com a variação no tratamento dos temas.

Alguns desses textos foram publicados em jornais sob o nome de Spleen de Paris e narravam cenas parisienses. A edição com todos eles é póstuma e se chama Pequenos Poemas em Prosa (1869).

É preciso estar-se, sempre, bêbado. Tudo está lá, eis a única questão. Para não sentir o fardo do tempo, que parte vossos ombros e verga-vos para a terra, é preciso embebedar-vos sem tréguas. 
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos. ("Embebedai-vos")

Abolir o verso na poesia foi uma ruptura considerável para uma época que via tal estrutura como inconcebível, paradoxal. Acredita-se que as traduções literais de poesia - empreendida por inúmeros escritores desde o século XVIII -, que acabavam suprimindo o ritmo e a rima dos versos originais, tenha contribuído para a aceitação do poema de formato mais espontâneo: em prosa ou com versos livres. Baudelaire, inclusive, foi o primeiro a publicar na França (em 1861) a tradução de um poema de Whalt Whitman em verso livre. 




O CRÍTICO E TRADUTOR

Pode-se dizer que o trabalho teórico de Baudelaire se alinha ombro a ombro com sua obra artística. O autor foi um crítico proeminente em sua época, tendo publicado em jornais e coletâneas e ajudando a popularizar o formato ensaístico. Ele teceu importantes reflexões sobre a modernidade  e sobre arte, alguns disponíveis atualmente em pequenas edições póstumas, como Escritos sobre Arte e Sobre a Modernidade.

Baudelaire foi, ainda, um importante tradutor, tendo vertido inúmeros textos de Edgar Alan Poe para o francês - trabalho que contribuiu sobremaneira para o reconhecimento do escritor norte-americano.

VISIONÁRIO

As contribuições artísticas e teóricas de Baudelaire estendem-se muito à frente de seu tempo. Os simbolistas devem-lhe quase tudo, em especial a teoria das Correspondências, que ele evocava do filósofo sueco Swedenborg e do compositor alemão Richard Wagner. 

Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto à claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam
("Correspondências")

Seu idealismo realista propiciou as primeiras manifestações do realismo e do naturalismo, e sua imagética pujante e original também serviu de modelo a muitos surrealistas.

O poeta André Gide, vencedor do Nobel em 1947 e fundador da editora Gallimard, afirmava que, em sua época, a influência de Baudelaire ainda não havia se esgotado. Ainda que tenha morrido jovem, aos 46, colecionando detratores, imerso em dívidas e padecendo gravemente dos males da sífilis, Baudelaire sabia de sua importância. "Creio que a posteridade me concerne", dizia ele. Estava certíssimo.

Um comentário:

Rômulo disse...

Olá, seria importante que você postasse a referência bibliográfica de apoio. Muito bom o seu artigo.