segunda-feira, março 11, 2013

A poesia confessional de Anne Sexton



Nada como uma poeta suicida para animar um domingo em feriado de carnaval, não? Se vocês prestarem a atenção, alguns dos meus posts aqui no 365, a maioria, pelo menos nessa fase inicial, comentam artistas com algum tipo de desajuste. Creio que exista uma linha tênue que separe os desequilibrados mentais dos artistas. Obviamente, uma coisa não exclui a outra, pessoas transtornadas podem ser artistas e vice-versa, mas é notável como ambas as categorias tendem a ter uma concepção singular e diversa da realidade. O desajuste ou os questionamentos que muitos autores revelam em seus trabalhos tendem a desnudar questões importantes acerca do tempo em que vivem e da cultura que compartilham, porque essas pessoas costumam ter uma sensibilidade maior e transitam num intermédio entre o status quo e a consciência da inadequação. É o caso de Anne Sexton.

Essa norte-americana, nascida em 9 de Novembro de 1928, iniciou-se em poesia por questões psicológicas. Filha de um pai alcoólatra e de uma mãe que teve as aspirações literárias frustradas pela vida doméstica, Anne sentia-se deslocada, buscando refúgio com a tia-avó solteirona, Anna Dingley. Estudante desobediente e desconcentrada, foi indicada pelos professores para uma educação especial que os pais não se interessaram em fornecer. No fundo, esperavam que sua inadequação se resolvesse com o casamento.

Sofrendo de seguidas depressões e tendo tentado o suicídio em um de seus aniversários, Anne foi incentivada por seu psiquiatra a escrever e acabou se entusiasmando. Participou de oficinas de escrita e foi aluna do curso de poesia ministrado por Robert Lowel, na Universidade de Boston, onde acabou conhecendo a, também poeta e também suicida, Sylvia Plath. Lowel, Sexton e Plath integram o grupo que instaurou a poesia confessional nos Estados Unidos, e os versos livres de Anne são extremamente íntimos e incomuns para a época, girando não somente em torno da depressão, da morte e da complexa relação com seus familiares, mas tratando também sobre a menstruação, o aborto e a masturbação.

A poeta alcançou algum reconhecimento, tendo seus poemas publicados em proeminentes revistas, como a New Yorker e a Harper’s Magazine. Ministrou, ainda, alguns cursos em universidades de Boston e venceu o Prêmio Pulitzer, em 1967. Sexton agregava carisma e simpatia, capazes de entreter seus pares, a uma dependência constante dos amigos, dos amantes, dos psiquiatras (com quem também se relacionou) e dos barbitúricos. Nada disso,no entanto, aplacava a sua solidão.

Em 4 de Outubro de 1974, após retornar de uma reunião para revisar o manuscrito do livro The Awful Rowing Toward God (1975, póstumo), Anne vestiu o casaco de peles de sua mãe, trancou-se na garagem, ligou o carro e se suicidou por inalação de monóxido de carbono. 

Infelizmente, seus livros não estão disponíveis em português. Eu, ao menos, nunca encontrei nenhuma tradução, com exceção da biografia Anne Sexton: a morte não é vida, escrita por Diane Wood Middlebrook.

O CCBB de Brasília está exibindo o espetáculo “Sexton”, baseado em fatos de sua vida.



Algumas das obras da poeta:

♥ Live or Die (1966), vencedor do Pulitzer

♥ Love Poems (1969)

♥ Transformations (1969)

♥ Mercy Street (1971), peça que inspirou essa música do Peter Gabriel:





Abaixo, alguns poemas seus, traduzidos por mim:

Wanting to die

Since you ask, most days I cannot remember.

I walk in my clothing, unmarked by that voyage. 
Then the almost unnameable lust returns.

Even then I have nothing against life.
I know well the grass blades you mention,
the furniture you have placed under the sun.

But suicides have a special language.
Like carpenters they want to know which tools
they never ask why build.

Twice I have so simply declared myself,
have possessed the enemy, eaten the enemy,
have taken on his craft, his magic.

In this way, heavy and thoughtful,
warmer than oil or water,
I have rested, drooling at the mouth-hole.

I did not think of my body at needle point.
Even the cornea and the leftover urine were gone.
Suicides have already betrayed the body.

Still-born, they don’t always die,
but dazzled, they can’t forget a drug so sweet
that even children would look on and smile.

To thrust all that life under your tongue! -
that, all by itself, becomes a passion.
Death’s a sad bone; bruised, you’d say,

and yet she waits for me, year after year,
to so delicately undo an old wound,
to empty my breath from its bad prison.

Balanced there, suicides sometimes meet,
raging at the fruit a pumped-up moon,
leaving the bread they mistook for a kiss,

leaving the page of the book carelessly open,
something unsaid, the phone off the hook
and the love whatever it was, an infection.


Querendo morrer


Já que perguntou, na maioria das vezes, não consigo lembrar.
Caminho em minhas vestes, nunca amarrotadas por essa viagem.
Daí, o desejo mais inominável retorna.

Mesmo então, não tenho nada contra a vida.
Conheço bem as folhas de grama que você mencionou,
A mobília que você dispôs sob o sol.

Mas os suicidas têm uma linguagem especial.
Como carpinteiros, eles querem saber com quais ferramentas.
Eles nunca se perguntam por que construir.

Por duas vezes, simplesmente  me pronunciei,
Possuí o inimigo, devorei o inimigo,
Roubei-lhe a habilidade, a magia.

Dessa forma, pesada e pensativa,
Mais cálida que óleo ou água,
Repousei, salivando pelo buraco da boca.

Não pensei no meu corpo exposto à agulha.
Até a córnea e a urina restante se foram.
Os suicidas já traíram o corpo.

Natimortos, nem sempre falecem,
Mas, confusos, nunca esquecem uma droga tão doce
Que mesmo crianças sorririam ao vê-la.

Investir a vida toda embaixo da língua! –
Isso, por si só, torna-se uma paixão.
A morte é um osso triste; contundido, diria você,

E ela ainda me espera, ano após ano,
Para, tão delicadamente, desfazer uma ferida antiga,
E esvaziar meu suspiro de sua terrível prisão.

Ali balanceados, suicidas às vezes se encontram,
Enfurecidos com o fruto, com a lua excitada,
Abandonando o pão confundido com o beijo,

Deixando a página do livro aberta sem cuidado,
Algo não-dito, o telefone fora do gancho
E o amor, seja lá o que tenha sido, uma infecção.



The fury of sunsets

Something
cold is in the air,
an aura of ice
and phlegm.
All day I've built
a lifetime and now
the sun sinks to
undo it.
The horizon bleeds
and sucks its thumb.
goes out of sight.
And I wonder about
this lifetime with myself,
this dream I'm living.
I could eat the sky
like an apple
but I'd rather
ask the first star:
why am I here?
why do I live in this house?
who's responsible?
eh?


A fúria dos ocasos

Algo frio
paira no ar,
uma aura de gelo
e uma apatia.
Construí, o dia inteiro,
uma vida, e agora
o sol afunda
para desfazê-la.
O horizonte sangra
e chupa o dedo.
O pequeno dedão vermelho
sai de vista.
E me pergunto
sobre a vida,
sobre esse sonho que vivo.
Eu poderia comer o céu
como a uma maçã,
mas prefiro perguntar
à estrela primeva:
Por que estou aqui?
Por que moro nessa casa?
Quem é o culpado?
Hein?


Anna Who Was Mad

Anna who was mad,
I have a knife in my armpit.
When I stand on tiptoe I tap out messages.
Am I some sort of infection?
Did I make you go insane?
Did I make the sounds go sour?
Did I tell you to climb out the window?
Forgive. Forgive.
Say not I did.
Say not.
Say.

Speak Mary-words into our pillow.
Take me the gangling twelve-year-old
into your sunken lap.
Whisper like a buttercup.
Eat me. Eat me up like cream pudding.
Take me in.
Take me.
Take.

Give me a report on the condition of my soul.
Give me a complete statement of my actions.
Hand me a jack-in-the-pulpit and let me listen in.
Put me in the stirrups and bring a tour group through.
Number my sins on the grocery list and let me buy.
Did I make you go insane?
Did I turn up your earphone and let a siren drive through?
Did I open the door for the mustached psychiatrist
who dragged you out like a gold cart?
Did I make you go insane?
From the grave write me, Anna!
You are nothing but ashes but nevertheless
pick up the Parker Pen I gave you.
Write me.
Write.


Anna que era louca

Anna que era louca,
Tenho uma faca embaixo do braço.
Quando subo na ponta dos pés, crio mensagens.
Sou um tipo de infecção?
Levei-a à loucura?
Tornei os sons estridentes?
Te mandei subir pela janela?
Perdoe-me. Perdoe-me.
Diga que não o fiz.
Diga que não.
Diga.

Reze Ave-Marias em nosso travesseiro.
Leve-me, a desajeitada de doze anos,
Para seu colo fundo.
Sussurre como um doce.
Me coma. Me coma como um pudim de creme.
Leve-me pra dentro.
Leve-me.
Leve.

Dê-me um parecer sobre o estado de minha alma.
Dê-me uma declaração completa de minhas ações.
Dê-me uma flor venenosa e deixe-me ouvir.
Ponha-me em estribos e me traga um grupo de passeio 
Numere meus pecados na lista de compras e deixe-me comprá-los
Levei-a à loucura?
Aumentei o volume de seus fones e pus uma sirene a tocar?
Abri a porta para o psiquiatra bigodudo
Que a levou embora como uma carreta dourada?
Levei-a à loucura?
Escreva-me de seu túmulo, Anna!
Você não passa de cinzas, mas, ainda assim,
Pegue a caneta Parker que te dei.
Escreva-me.
Escreva.





Anne, começava muitas de suas leituras públicas e palestras com o poema "Her Kind". Abaixo, ela o declama, de uma forma que me assombra todas as vezes que ouço!

Um comentário:

Anônimo disse...
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