quarta-feira, março 06, 2013

Arthur Rimbaud, o poeta rebelde

Uma noite sentei a Beleza nos meus joelhos.
E achei-a  amarga. E injuriei-a.
(A. Rimbaud)

Foi na graduação, com o poeta e professor Luiz Carlos Lima, que conheci alguns dos poetas que se tornariam meus heróis. O francês Arthur Rimbaud é um deles. Ele foi o meu primeiro parâmetro para o "deslimite" do verso. Uma espécie de santo às avessas.

O professor Lima tinha um método rimbaudiano de terminar as aulas no bar e falava com carinho do poeta cuja estória tanto chamou a minha atenção.



No caso desse artista precoce, tanto a obra quanto a vida passam longe da mais remota tradição. Rimbaud produziu intensamente, desde muito cedo, interrompendo a carreira literária para continuar suas ousadias na vida. Nascido em Charleville, em 1854, Rimbaud costuma ser lembrado como um poeta maldito, o enfant terrible que tinha um pai ausente e uma mãe austera e injusta que parecia não amá-lo. Nesse círculo familiar problemático, o jovem Arthur repudiou e amaldiçoou a porção afetuosa de sua personalidade num exercício voluntário de esquizofrenia. Passou a buscar uma vida desregrada, repleta de vícios e excessos, sorvida com intensidade. Seus versos, que buscavam desordenar os sentidos, refletiam bem isso, mas parecem não ter sido suficientes para aplacar sua fúria.

Tendo escrito toda a sua obra dos dezesseis aos vinte anos, Rimbaud lutava por um novo código moral e pela liberdade da forma póetica. Sua obra pode parecer muito difícil na primeira leitura e acabar sendo abandonada. No entanto, ela revelava uma angústia e uma lealdade tão profundas que foi capaz de fascinar leitores e artistas de todas as idades, que tendem a exaltá-lo ou explicá-lo de forma entusiasmada. Dylan Thomas, Allen Ginsberg, Ernest Hemingway, Jack Kerouac, Patti Smith, Nabokov, Bob Dylan, Henry Miller, Jim Morrison são algumas das personalidades influenciadas por ele.



                                  PRIMEIROS ANOS E A RELAÇÃO COM VERLAINE

Quando adolescente, Rimbaud já se destacava como aluno brilhante, ganhando inúmeros prêmios por suas composições, algumas em latim. Ficou muito próximo do professor Georges Izambard que lhe serviu de mentor e que disponibilizou sua pequena biblioteca para o deleite e instrução do pupilo. Entediado com a vidinha provinciana de Charleville, o jovem fazia inúmeras viagens (Paris, Bruxelas, Londres), muitas delas a pé. Entrava escondido em trens, pegava dinheiro emprestado com amigos e saía em busca de estímulos para sua mente inquieta. Anarquista, divertia-se, chocando a sociedade burguesa com sua postura iconoclasta, seus maus modos, suas roupas rotas e seu cabelo comprido.

Enviava cartas e poemas para os escritores proeminentes de Paris com o sonho de ser publicado, mas muitas vezes não era compreendido. Todavia, em 1871, o poeta simbolista Verlaine, ficou impressionado com seu trabalho e o convidou a ficar em Paris, em sua casa. Tem início a explosiva e conturbada relação da dupla, durante a qual Rimbaud intensificaria a busca pelo poder e sua manipulação por meio da experiência do pecado, da alteração dos sentidos e da arte. Foi por influência do novo amigo que Arthur abandona a estética parnasianista do início de sua produção. Especula-se que eles mantinham um relacionamento amoroso, o que sempre negaram. Fato é que viraram parceiros não só nos versos, mas na baderna, viajando juntos, embebedando-se, fazendo cenas nos círculos literários. Verlaine, que tinha sérios problemas com a bebida, sumia de casa com frequência e acabou abandonando a mulher e o filho pequeno para acompanhar o jovem parceiro em suas loucuras. Os dois brigavam bastante e tiveram a relação fragilizada quando, bêbado e transtornado, Verlaine lhe deu um tiro no pulso.



ILUMINAÇÕES

Rimbaud compreendia a arte como uma forma de profecia e assumia-se vidente, o que no caso dele significava ser um vagabundo errante no sentido mais agudamente moderno da palavra. Repudiava o conforto burguês em busca de experiências mais significativas. Nesse sentido, as Iluminações (1872-1873) são seus poemas oraculares.

Sei de céus a estourar de relâmpagos, trombas
Ressacas e marés; eu sei do entardecer.
Da Aurora a crepitar como um bando de pombas.
E vi alguma vez o que o homem pensou ver.* 

O poeta via-se como um andarilho, que seguia viagem pedindo carona, sendo corrompido e corrompendo. Eis o prenúncio dos beatniks.

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal,
Puxa vida! a sonhar amores destemidos!

O meu único par de calças tinhas furos.
- Pequeno Polegar de sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior.
Os meus astros no céu rangem frêmitos puros.*

O longo poema "O barco ébrio" soa como uma autobiografia do espírito. Contém todo o passado do poeta e traça, profeticamente, as linhas gerais de seu futuro, a vontade de ser poeta e a noção de que o mundo é a um só tempo nossa fortuna e nossa tragédia.


Eis que a partir daí eu me banhei no Poema
Do Mar que, latescente e infuso de astros, traga

O verde-azul, por onde, aparição extrema
E lívida, um cadáver pensativo vaga.*




UMA TEMPORADA NO INFERNO

Seu trabalho mais icônico, Uma temporada no inferno, foi composto em 1873, após retornar de uma viagem a Londres, regada a excessos, com Verlaine. Trata-se de uma autobiografia metafísica, um visceral relato em prosa poética de um homem perscrutando suas profundezas e suas origens, sob as perspectivas  filosófica, psicológica, histórica, teológica. Repletos de rara beleza imagética, os textos perpassam sonhos, terras distantes, o desejo de solidão, a sede de conhecimento, o passado ancestral e a busca pelo desconhecido.

Alguns artistas só alcançam o âmbito do espírito mediante alguma forma de violência. São os artistas que conhecem o inferno e falam dele com intimidade. É o caso de Rimbaud. Em Uma temporada, a violência comparece não só nos temas, mas nos ritmos, no movimento das frases, nos símbolos fulgentes. O significado do sofrimento humano é comunicado pelo ritmo das pulsações (violência, irregularidade, arroubo, delicadeza, clamor, reticência).

     Para mim. A história das minhas loucuras. Há muito me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e julgava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.   Gostava das pinturas idiotas, em portas, decorações, telas circenses, placas, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim da igreja, livros eróticos sem ortografia, romances dos nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, estribilhos ingênuos, ritmos ingênuos. Sonhava com as cruzadas, viagens de descobertas de que não existem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião esmagadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes : acreditava em todas as magias.     Inventava a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde. Regulava a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me vangloriava de ter inventado um verbo poético acessível, um dia ou outro, a todos os sentidos. Era comigo traduzi-los.     Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens. 


O FIM

Nietzsche acreditava que a criação artística emergia da combinação dos elementos dionisíaco (êxtase, ebriedade, excesso) e apolíneo (beleza harmoniosa). Tidos separadamente, Uma temporada no inferno é essencialmente dionisíaco e Iluminações é essencialmente apolíneo. Combinados ilustram a doutrina nietzschiana  segundo a qual a arte é a um só tempo resposta ao sofrimento e celebração da vida.

Rimbaud foi capaz de perceber e sintetizar isso num período relativamente curto e, quando percebeu que sua grande contribuição à literatura estava pronta, retirou-se.  Alterou a rota de suas viagens, transferindo-as dos versos para a própria existência. De 1880 a 1890, viveu e trabalhou em condições adversas para diversas empresas na África e na Ásia, incluindo o comércio de café, as forças armadas e o tráfico de armas. O último ano de sua vida, 1891, foi de intenso sofrimento físico devido a um tumor no joelho. Teve a perna amputada e morreu aos 37 anos.

Ele pode não ter tido tempo de constatá-lo, mas revolucionou a poesia moderna. No fim, sua vida foi também extensão de sua grande obra.




* traduções de Ivo Barroso

4 comentários:

Anônimo disse...
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ﯼαm ♪ disse...

Que bom você ter postado sobre esse escritor, justamente quando pensava em pesquisar sobre ele. O post ficou ótimo. Já fiquei com vontade de ler Uma temporada no inferno.
Adoro esse seu blog, Aline.

Aline Aimée disse...

Que bom que curte!
;)

Eduardo Keny disse...

Eu li Uma Temporada no Inferno , Iluminações , e também a biografia dele escrita por Jean Baptiste Baronian, mas não sabia que tinham lançado a poesia completa , preciso comprar urgentemente !!!!!!!!!