quarta-feira, março 13, 2013

De como caí na armadilha de Jorge Luis Borges


Descobri Jorge Luis Borges aos 22 anos, por acaso, na faculdade, através de uma colega que estava descobrindo-o também, toda apaixonadinha. Resolvi ver qual era e peguei O Aleph na biblioteca. Vou tentar resumir minhas impressões.

Produção, solta a vinheta do Batman!




 Paulada! Hadouken! Soco nos peitos!

Foi o texto desse argentino de 1899, o primeiro a me causar perturbações das mais inquietantes. Não sei se minha experiência de leitura é abrangente o bastante pra validar o que vou dizer, mas o fato é que só diante de Borges senti-me inteiramente relegada ao desamparo. Finalmente, um texto zombava de mim de forma inteligente, instigante. Encarar os desafios que o escritor punha diante de meus olhos fez com que eu desenvolvesse um imenso respeito por ele.



Borges tinha um interesse genuíno por armadilhas intelectuais e discursivas e as explorava continuamente em seus textos. Além disso, era um grande leitor, acima de qualquer coisa, e isso é patente tanto na sua ficção como nas resenhas e nos ensaios, repletos de referências, piadas e subversões das referências.

Em geral, as pessoas buscam aquele calorzinho acalentador das leituras de reconciliação e redescoberta de nós mesmos, que atam as pontas da nossa vida e nos devolvem algum sentido. Sou assim também, quem nunca? Só que a narrativa de Borges é leitura de perdição. É pra ficar doido, perdido feito cego em tiroteio, embriagado. Parece papo de maluco (e talvez seja mesmo), mas sabem quando o Leonardo Pataca conquistou a Maria das Hortaliças com uma pisadela e um beliscão? Então! Borges zombou de mim e eu gamei!

Costumo chamar o texto de Borges de “LSD literário”, cujas experiências incluem “baratos” como a criação de mundos impossíveis, duplos, labirintos, caminhos eternos, símbolos, objetos místicos. Nos contos d’O Aleph e do Ficções – ótimos livros para se iniciar by the way – o escritor desenvolve a intertextualidade, a interposição de lugares e épocas distintos, jornadas repletas de alusões e simbolismos, simetrias, o livro dentro do livro, o espelho através do espelho, o tempo circular. Suas ousadias incluíam resenhas ficcionais de textos que não existiam, a reescritura idêntica e de memória de um clássico da literatura, sociedades secretas que abrangiam o mundo inteiro, mapas do tamanho exato das cidades que reproduzem.



Borges também apreciava se apropriar de discursos específicos por seu valor estético (filosófico, religioso, enciclopédico, ensaístico) de modo a inventar novas realidades ficcionais. Tais proezas causavam alguma confusão nos meios intelectuais, pois muitos críticos e leitores levavam a sério teorias e análises que não passavam de traquinagem artística. Muito sapeca esse senhor!

O autor argentino não se atreveu a escrever romances (fico imaginando essas doideiras todas num trambolho do naipe de uma Montanha Mágica. Seria surreal!). Acontece que Borges gostava da concisão. Inclusive, ele ingressou na literatura pelos versos. Só que, após um grave acidente que quase o matou aos 49 anos, deixando-o inconsciente por mais de um mês, e que lhe acarretou amnésia temporária, ele se agarrou ao conto para sempre. É que ele recobrou a consciência tão confuso que achou que havia perdido a razão, e, para tentar descobrir se ainda estava são, escreveu "Pierre Menard, autor do Quixote" - um de seus contos mais incríveis! Provou sua lucidez e de quebra iniciou sua fase contista mais profícua!

Sua melhor poesia, por outro lado, é de uma clareza tremenda. Após superar a fase ultraísta (uma espécie de modernismo) do início da carreira, compôs versos que combinavam a leveza e a simplicidade da prosa com temas elevados, abordados com toda a sua erudição e argúcia.

Nesse site, dá pra conferir a sua bibliografia. É óbvio que não li tudo, até porque ainda passo muito tempo relendo seus textos. Borges é desses escritores cujos trabalhos não se esgotam, dos quais cada releitura é chance de descobrir novos detalhes, novas sutilezas e armadilhas.


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Nascido numa família de classe média, teve ótima educação e gozou de boa condição financeira até 1937, ano em que a forte desvalorização da moeda argentina o obrigou a trabalhar. Até então, Borges esteve livre para se dedicar somente ao estudo, à literatura e à crítica. (Só pra nos matar de inveja e vergonha: ele escreveu o primeiro conto aos sete anos e traduzia desde muito cedo. Adolescente, estudou alemão sozinho para ler Schopenhauer).

Seu primeiro emprego formal (ele colaborava em revistas) foi na biblioteca Miguel Cané, onde foi designado para uma função medíocre que detestava, mas que cumpria rapidamente a fim de aproveitar o resto do dia com leituras mais interessantes. Foi ali que nasceu a inspiração para um de seus contos mais famosos, "A Biblioteca de Babel". Mais tarde, em 1955, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina, e lecionou na Universidade de Buenos Aires.

Borges herdou do pai uma doença degenerativa que lhe tirou gradativamente a visão. Em 1950, já dependia de amigos e parentes para registrar seus escritos. Era tímido e detestava falar em público. Embora gozasse do prestígio da crítica, recebendo muitas homenagens, prêmios e convites, suas falações eram muito modestas. Suas apreciações literárias, no entanto eram polêmicas. Criticava Thomas Mann e Goethe, metia o malho nos autores mais importantes de seu país.

Morreu de enfisema pulmonar em Genebra, aos 86 anos.

***


Apesar da pequena extensão de seus contos, sua composição era excedente, rica de recursos e detalhes. Tenho a impressão de que a escritura, para Borges, era um grande divertimento, e que cada texto seu era oferecido como desafio e como convite à recreação. Eu, que sempre pendi para o inusitado na vida e nas artes, topei a brincadeira. Vocês topam?

Um leitor

Que outros se vangloriem das páginas que escreveram;
eu me orgulho das que li.
Não fui um filólogo,
não pesquisei as declinações, os modos, a laboriosa
mutação das letras,
o de que se endurece em te,
a equivalência do ge e do ka,
mas ao longo de meus anos professei
a paixão da linguagem.
Minhas noites estão cheias de Virgílio;
ter conhecido e esquecido o latim
é uma posse, porque o esquecimento
é uma das formas da memória, seu porão difuso,
a outra face secreta da moeda.
Quando em meus olhos se apagaram as vãs aparências estimadas,
os rostos e a página,
dediquei-me ao estudo da linguagem de ferro
empregada por meus antepassados para cantar
espadas e solidões,
e agora, através de sete séculos,
desde a Última Tule,
tua voz me alcança, Snorri Sturluson.
O jovem, diante o livro, impõe-se uma disciplina precisa
e o faz em busca de um conhecimento preciso;
em minha idade, toda empresa é uma aventura
que limita com a noite.
Não acabarei de decifrar as antigas línguas do Norte,
não afundarei as mãos ansiosas no ouro de Sigurd;
a tarefa que empreendo é ilimitada
e há de acompanhar-me até o fim,
não menos misteriosa que o universo
e que eu, o aprendiz.

(Jorge Luis Borges in Elogio da Sombra)

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