segunda-feira, março 25, 2013

De verme e alienado todo mundo tem um pouco - Franz Kafka



Se no meu primeiro post tratei de um autor de estilo inusitado, e no segundo abordei um poeta de vida conturbada, hoje trarei à baila uma personalidade que agrega esses dois aspectos: Franz Kafka meu amor.

Nascido em 03 de Julho de 1883, em Praga, na Boêmia (hoje República Tcheca), Kafka alcançou importância tal que seu nome virou adjetivo no meio acadêmico. O termo “kafkiano” pode apontar qualquer coisa de absurdo, burocrático, inatingível ou incompreensível.

Frustrado nos âmbitos profissional e pessoal, o autor buscava na escrita o alívio para a angústia, embora, aparentemente, não ambicionasse a carreira literária num primeiro momento.

Vida


Casa de Kafka, em Praga

Kafka nasce e cresce numa situação marginal:  checo, judeu e tendo o alemão por primeira língua, sua identidade não era claramente definida. Praga, na época do nascimento do autor, ainda fazia parte do império dos Habsburgos na Boêmia, onde coexistiam e se interligavam, para o bem e para o mal, diversas nacionalidades, linguagens e orientações políticas e sociais. Ali, a situação dos judeus era bastante delicada, pois eles primeiro se identificavam com a cultura alemã, mas viviam entre os tchecos. Falavam alemão porque era parecido com o iídiche e era a língua oficial do império. O nacionalismo tcheco crescia contra a predominância alemã, e os alemães geralmente tratavam os tchecos com desprezo. Além disso, um forte sentimento anti-semita já começava a se generalizar.

Nesse cenário, o autor assumiu um posicionamento ambíguo. Por serem tchecos e pouco afirmativos em relação ao judaísmo, Kafka e seus familiares conseguiram escapar da perseguição e dos golpes de violência comuns no gueto onde viviam. Isso, no entanto, não diminuía o sentimento de inadequação do escritor, que chegou a assimilar uma espécie de “anti-semitismo saudável” que o fazia sentir-se inferior, rebaixado.

Kafka, o moço retraído que escondia sua dor, e, abaixo, Hermann, o pai terrível.
Ilustrações de Robert Crumb


Sua relação com o pai, Hermann, era conturbada e foi a grande responsável por muitas de suas inseguranças. O austero comerciante tratava o jovem filho com tirania, ridicularizando suas fraquezas e declarando-o inútil para qualquer tarefa prática. Franzino e de saúde delicada, o jovem Franz buscou exercitar-se e fazia dietas com vistas a se fortalecer. Era exímio nadador, gostava de fazer longas caminhadas e vestia-se com extrema elegância, mas a falta de autoconfiança física nunca o abandonaria e ele jamais alcançaria a robustez que desejava.

Seu destaque ocorrera no campo intelectual, com a graduação em direito e com o cargo de diretor do Instituto do Seguro Operário Contra Acidentes de trabalho –  conquistas que, junto com a habilidade para a escrita, Hermann desprezava. Esse relacionamento odioso deu origem a Carta ao pai - pungente relato de um filho ressentido, traumatizado para sempre - e também teria inspirado o conto “O veredito”, no qual o pai decreta para o filho uma terrível condenação. Em seus diários, Kafka diz sentir-se, em relação ao progenitor, como um verme que, tendo a cauda esmagada, tenta fugir com a metade anterior do corpo. Via-o como um gigante que ocupava o mundo inteiro, deixando-lhe pouco espaço por onde transitar e se desenvolver.

Essa insegurança também se manifestava no campo amoroso. Manteve um relacionamento à distância com Felice Bauer, que morava em Berlin, tendo sido seu noivo por duas vezes. Namorou outras moças, mas nunca se casou. Evitava ao máximo o contato físico, temia o sexo julgando-o impuro, sujo.

Correspondência com Milena, uma de suas namoradas.
Ilustração de Robert Crumb


No Instituto, Kafka não encontrava maiores realizações. Aborreciam-lhe a burocracia, o tecnicismo, os terríveis acidentes que tinha de acompanhar e catalogar, a estadia em meio a documentos e a atividade repetitiva, impessoal e pouco criativa. À noite, após chegar do trabalho, à casa agitada e barulhenta, Franz refugiava-se no quarto para escrever. Fazia-o mais para si mesmo, a fim de aplacar os próprios demônios.

A idéia da morte soava-lhe tentadora, e ele a desejou com ardor, mas faltava-lhe a coragem para o suicídio. Fragilizado pela tuberculose que o debilitou ao longo de sete anos, entregou-se de vez à literatura. Seu fim viria quando ele já contava 40 anos, por uma insuficiência cardíaca decorrente da doença.

Literatura


O Processo - R. Crumb


Muitos dos textos de Kafka vão abordar os sentimentos que o dominavam: a fraqueza, a angústia, a inadequação, o medo, a doença, o desespero ante o absurdo da existência.

Alguns teóricos tentaram encaixá-lo em correntes muito específicas - marxista, judaica etc. – e é tentador analisá-lo sob as perspectivas psicanalíticas, sociológicas e filosóficas. Seriam suas metáforas alegorias do mundo moderno? O inseto-homem d’ A metamorfose representaria um indivíduo castrado? O instrumento (terrível) de tortura de “Na colônia penal” seria uma previsão dos métodos de execução nazistas? O processo estaria denunciando o absurdo das máquinas burocráticas?

Seu trabalho pode ser analisado por todos esses vieses, mas o maior mérito de sua obra parece residir no tema da alienação e no seu peculiar estilo narrativo. Em muitos de seus romances e contos, o protagonista está à deriva. Josef K., de O Processo, é julgado e condenado, por um tribunal bizarro e misterioso, por um crime que desconhece absolutamente.  Em O Castelo, o agrimensor K. é contratado para trabalhar no tal castelo, mas nunca consegue adentrar a propriedade. A autoridade é sempre inacessível e a máquina estatal está sempre além da compreensão. Em nenhum desses casos são oferecidas explicações sobre as incongruências dos fatos, para os personagens ou para o leitor, já que o narrador é tão ignorante, tão alienado quanto o personagem.

Fica também o leitor perdido, desorientado, especialmente porque toda a situação grotesca é narrada como trivial. A placidez com que os personagens aceitam os acontecimentos absurdos é perturbadora, desconcertante. Quando Gregor Samsa acorda transmutado em inseto, n’ A Metamorfose, não se desespera. Seus familiares tampouco. Enquanto ele se preocupa com sua ausência no trabalho,  sua família sente mais repulsa e irritação do que medo. Eles apenas têm de se adaptar aos inconvenientes da mudança inesperada, como a aparência desagradável e a dieta repugnante de Gregor. Oi? Ninguém grita, ninguém sai correndo. Ninguém chama o Fantástico ou o Padre Quevedo. Apenas resmungam: “que mala você por virar barata justo agora!”.  o.O Gregor parece menos alarmado com sua trágica e inexplicável transformação, do que envergonhado e triste pela dependência e desprezo de seus coabitantes.

Esse é um dos motivos que dificultam a classificação de sua obra. Normalmente associado ao gênero fantástico, Kafka destoa dos modelos mais comuns. O sobrenatural e o contraditório, que nas obras fantásticas de maneira geral, brilham pela via do estranhamento, não criam exaltação, sobressalto ou susto algum nos personagens criados pelo autor tcheco. Em contrapartida, provocam um estranhamento intenso no leitor.

O reconhecimento da obra kafkiana pela crítica ocorreu postumamente, uma vez que o autor publicou pouquíssimos trabalhos em vida. No Café Arco, que costumava frequentar com outros amigos escritores, em Praga, preferia ficar em silêncio, como ouvinte. E nas poucas vezes em que leu seus textos, fazia-o às gargalhadas, pois não acreditava no seu valor. Perto de morrer, pede ao amigo Max Brod que queime todos os seus escritos, mas este, felizmente, desobedece-o.

Max Brod e Kafka na praia


Com ou sem mensagem extra-literária, o texto kafkiano destaca-se pela originalidade dos temas e da forma. Dificilmente, algum leitor não se identifica, em certa medida, com algum dos “absurdos” descritos. Quem nunca se sentiu diminuído na sociedade, no trabalho ou na família? Quem nunca se sentiu sozinho? Frustrado? Violentado? Quem nunca se viu negligenciado por algum serviço essencial? Quem nunca se revoltou contra a ineficiência e contra a arbitrariedade da administração pública? Quem nunca experimentou a angústia de se ver subjugado por um “poder” entrevado e capenga? Somos todos um pouco vermes e um tanto perdidos, não? Eu mesma vivo identificando situações "kafkianas" na minha vida.

Agora, imaginem o que é poder refletir sobre isso tudo com histórias revestidas de imagens fortes e metáforas poderosas; pensar sobre a absurdidade e sobre o choque da existência através de um texto que tem a absurdidade e o choque como elementos orgânicos. Textos que Kafka compunha para “fazer doer”, tal qual um punhal enterrado na ferida; que ele escrevia a fim de diminuir a dor e a desorientação da experiência cotidiana, mas que são capazes de reavivá-las através da leitura. Tanto melhor! Antes um olhar desperto, brilhante de argúcia e de apreciação, que embotado pelas violações e pancadas diárias que sofremos. Ou não. A escolha é sua. Vai encarar?

"Em transe", o autor escreve - R. Crumb


Para os corajosos:

- A Metamorfose (1915)

- O Processo (1925)

Para quem quer conhecê-lo, recomendo:

- Carta ao pai (1919)

E os contos:

- “O veredito” (1912);
- “Diante da lei (1915)”;
- “Na colônia penal (novela, 1919)” ;
- “Um artista da fome” (1924).




Todas as ilustrações do quadrinista norte-americano Robert Crumb são do livrinho Kafka de Crumb, no qual ele adaptara não só alguns textos do autor tcheco, mas também passagens de sua vida. Bacana demais!


Pílulas Kafkianas


Pequena Fábula

“Ah”, disse o rato,“o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” ― “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.

Desista

Era de manhã muito cedo, as ruas limpas e desertas, eu a caminho da estação. Comparei o relógio da torre com o meu e vi que era muito mais tarde do que pensava. Precisava me apressar. O choque dessa descoberta me fez hesitar quanto ao caminho a seguir: não conhecia bem a cidade. Felizmente vi um policial, corri para ele e, ofegante, perguntei-lhe qual o caminho da estação. Ele sorriu e disse: - Está me perguntando qual o caminho?
- Sim - respondi -, pois não consigo achá-lo.
- Desista! Desista! - disse ele e, com um movimento brusco, voltou-se como se quisesse ficar sozinho com o próprio riso.

Um comentário:

Jackeline disse...

Escritor respeitável! A metamorfose é um grande livro!