segunda-feira, março 18, 2013

Pegando carona com Jack Kerouac



Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, 
loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao 
mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, 
mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas 
romanas explodindo como aranhas através das estrelas .
(Jack Kerouac)

Descobri os romances do Kerouac tardiamente. Tê-lo conhecido na adolescência teria feito total sentido, e quem me conhece e já leu o autor seria capaz de jurar que eu era sua leitora já naquela época. Não era. E tê-lo descoberto no meado dos vinte me deixou com um sabor de nostalgia na boca. É que Kerouac é o autor de On the road, a bíblia dos hippies. Seria inspirada nesse livro que a contracultura instauraria a santíssima trindade sexo-drogas-rock’roll e os ideais de multiculturalismo, liberdade sexual, wanderlust. Como tenho um passado ripongo, amo pegar a estrada e injetar doses fortes de (calma, gente!) rock na veia, tenho um carinho especial pelos livros dele.

KEROUAC E A BEAT GENERATION

Nascido em 1922, o norte-americano de ascendência franco-canadense, Jean Louis Lebris de Kerouac, fez parte de uma geração de artistas conhecida como Beat. Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo vivia num clima de intolerância, preconceito, de retração social e cultural. Nos Estados Unidos, predominava uma paranóia anticomunista que motivou a doutrina Truman e a Guerra Fria, a caça às bruxas macarthista e todo um posicionamento conservador e moralista que tendia a controlar e repreender a cultura, a vida sexual, a conduta civil de maneira geral.

Entre 1943 e 1945, reunia-se uma galerinha em Nova Yorque, centralizada na Universidade de Columbia, que andava bem insatisfeita com esse climão e que começou a se mexer no sentido de fugir dessa nhaca e experimentar vivências mais significantes. Jack Kerouac era um deles.

Quando pequeno, Jack só falava o joual, um dialeto franco-canadense, e só começaria a aprender o inglês aos seis anos. Ingressa na faculdade graças a uma bolsa para jogar futebol, mas abandona dois anos depois, devido a uma briga com o treinador. Em 1942, junta-se à Marinha Mercante e dá início às suas numerosas viagens. No ano seguinte, alista-se na Marinha, onde fora dispensado por razões psiquiátricas.

No período em que estava na universidade conhece os confrades Allen Ginsberg (Uivo), Willian Burroughs (Almoço Nu) e Lucien Carr, com quem comporia o primeiro germe da Geração Beat. Nos anos subseqüentes, conhece Hal Chase, Neal Cassady, Carl Solomon e Gregory Corso, um pessoal que engrossaria o caldo do bando que estava prestes a chacoalhar a cultura norte-americana.

Lucien Carr, Kerouac, Ginsberg e Burroughs

Ainda que nem todos seguissem a carreira literária, esses rapazes tinham um comportamento singular diante da literatura. Liam intensamente e passavam as noites em claro, bebendo, consumindo drogas, ouvindo jazz e bebop ,e discutindo suas leituras. Veneravam Rimbaud, Baudelaire, Kafka, Blake, Dostoievski, dentre outros. E compartilhavam uns com os outros os interesses mais variados e específicos: ioga, psicanálise, hipnose, boxe, drogas, estudos teóricos sobre a linguagem etc. Promoviam, com freqüência, saraus literários, onde divulgavam suas obras e recitavam seus textos.

Foi com essa galera empolgada que Jack empreendeu muitas das viagens que celebrizaria em seu romance On the road (Pé na estrada). Jack e seus amigos elevavam a literatura a uma importância tal que buscavam mimetizar em suas vidas as condutas e comportamentos aprendidos nos livros. O interessante é que é exatamente o movimento inverso que caracterizará a produção literária desse grupo: viver loucamente para poder escrever a respeito. Isso significa, obviamente, fugir de todo e qualquer controle ou comedimento, o que incluía bebedeiras, orgias, roubos de carro, uso de entorpecentes, peregrinações noturnas em casas de jazz e muitas, muitas viagens.

Olhando assim, parece que não passavam de um bando de vadios baderneiros, mas a verdade é que eles buscavam experiências significativas, elevação espiritual, a turbinação da mente, o satori. Kerouac, inclusive, era católico e buscou essa iluminação durante muito tempo. É nesse sentido que o ab(uso) das drogas assumia o papel de estimulante da percepção, pois propiciava o desregramento dos sentidos, a alteração da consciência, a ampliação da experiência. O grupo chamava essa prática de Nova Visão.

A Geração Beat e seus textos inspiraram todo um pessoal que surgiu depois. Bob Dylan, Chrissie Hynde e Hector Babenco fugiram de casa depois de ler On the road. Neal Cassady, o grande personagem desse romance, dirigiria o ônibus com o qual Ken Kesey (Um estranho no ninho), os Merry Pranksters e a banda Grateful Dead realizariam os Acid-Tests, na década de 60, antes do LSD ser proibido.  John Lennon sugeriu a fusão de “beat” com “beetles” por causa do movimento. Allen Ginsberg viraria um grande mentor na São Francisco psicodélica. 

Sendo assim, não é exagero dizer que a revolução hippie e o imaginário pop como o conhecemos devem muito a esses rapazes.

ON THE ROAD


Kerouac escreveu On the road , em 1951, ao longo de três semanas, doido de benzedrina e café. Usou papel telex, um papel em rolo, para não ter de se distrair trocando as folhas na máquina de escrever. O mais icônico de seus romances relata os sete anos de viagens que fez sozinho ou com o amigo Neal Cassady, dirigindo ou pegando carona, de Nova Jersey até a Costa Oeste, atravessando o país e esticando até o México. Desnecessário dizer que suas aventuras incluíam garotas, álcool, drogas e jazz. Kerouac ia fazendo anotações ao longo do trajeto e as acumulava na mochila. Elas serviram de rascunho não só para On the road, mas também para outros romances.

Neal Cassady e Kerouac


Apesar de ser uma obra de ficção, todos os acontecimentos e personagens de On the road existiram, só que os nomes foram alterados. Jack é Sal Paradise; Neal Cassady é Dean Moriarty;  Allen Ginsberg é Carlo Marx e Willian Burroughs, Old Bull Lee. Cassady e sua loucura são os grandes personagens do romance, e suas cartas alucinadas e quase iletradas teriam inspirado o estilo caótico que Jack adotou nos livros.

On the road só foi publicado seis anos depois de terminada a primeira versão, e, durante esse período, Jack revisou, corrigiu e alterou o texto continuamente.  As diferentes coisas que o autor viu e aprendeu - os lugares e pessoas que conheceu, os hábitos que descobriu, os relacionamentos amorosos que viveu e as ocupações que assumiu - contribuíram para a atmosfera cosmopolita do texto. O romance exala um frescor, um sentimento de liberdade, um apreço pela diversidade, que acabaram alçando-o ao status de bíblia de uma geração.

ESTILO




Ao longo dos 23 romances que escreveu, Kerouac foi burilando seu estilo único. Buscava uma “prosa espontânea”, fluida, verborrágica, delirante, impressionista, sem o fulcro de uma reflexão mais judiciosa. Esse relato altamente confessional, embora estetizado com experimentações sonoras, tem muito de lírico. Uma das coisas mais tocantes no seu texto é a revelação sincera de seus medos e angústias, e a sua identificação e solidariedade com os vagabundos ferrados, duros, tristes, maltratados, viciados, apaixonados, abandonados, frágeis, vulneráveis (ufa!), mas sedentos de vida.

Enquanto lia Tristessa, sentia-me comovida com a pobre moça corrompida, viciada em morfina, vivendo em condições degradantes e perambulando com seu amante-poeta pelo submundo mexicano. O mesmo com Mardou, de Os Subterrâneos - tão magrinha, tão frágil e tão exótica, com suas roupas extravagantes; tão marginal por ser pobre, junkie e mestiça na América dos anos 50. Sério. Sentia vontade de abraçar aqueles trapos famintos e capengas que eram esses personagens. O intimismo confessional e a prosa poética de Kerouac contribuem muito para despertar esse tipo de sentimento.

Jack queria que seu texto soasse como um solo de sax de Charlie Parker, como uma jam caótica, por isso variava o ritmo, incluía coloquialismos, sotaques, onomatopéias, assonâncias, aliterações, suprimia vírgulas. Seus parágrafos eram quase poemas em prosa, mas foram literalmente retalhados pelos editores na primeira edição de On the road.

O budismo compareceria em vários de seus romances. Como apontei anteriormente, toda jornada excêntrica em que o autor se lançava era uma busca por iluminação. Em Dharma Bums, ele descreve suas oscilações entre noitadas alucinadas na cidade e as atividades junto à natureza que empreendeu em sua iniciação na filosofia oriental. Jack compreendia o deslocamento espacial como um processo de desenvolvimento e fortalecimento espiritual. Experimentou outra cultura e ervas fortes no México. Foi a Paris investigar sua ascendência.

Nos últimos romances, estava tão comprometido com essa jornada espiritual e íntima, que foi abolindo os plots e enredos, em benefício do relato espontâneo e da exploração fonética. Essa fidelidade extrema com os próprios anseios, no entanto, não o levou onde queria chegar.

O FIM DA ESTRADA



O fim da estrada de Kerouac foi decepcionante. Nenhum de seus demais romances obteve o mesmo sucesso e atenção que On the road. O livro que o tirou do anonimato também lhe legou duras críticas: foi considerado indecente e subliterato. E não lidava bem com o assédio.

Seus casamentos não deram certo, perdeu o convívio com a filha, sua arte não rendia lucros, a crítica não o aceitava bem. Reacionário, votou em Richard Nixon, condenou o uso de drogas, isolou-se do convívio social, tomou implicância com os hippies e passou os últimos dias assistindo à tv em casa com a mãe.  Bebia tanto que vivia tendo alucinações. Era um homem frustrado, sem dinheiro, desiludido.

Morreu aos 47 anos de uma hemorragia decorrente de cirrose. Seu "erro" parece ter sido o inconformismo, já que teimou em continuar escrevendo e não fazia carreira em nenhuma profissão. Sabia-se desajustado para o american way of life, mas nem tentou se enquadrar, não era capaz. Amargava o ressentimento, no entanto, por ter-se consumido em demasia sem que, em algum momento, atingisse a elevação desejada. Jack Kerouac abriu a estrada para toda uma geração, mas acabou se perdendo no caminho.

RECOMENDO:

On the road

Tristessa

Os subterrâneos

Satori em Paris


Um comentário:

Simone disse...

muito obrigada Aline! :)
gostei especialmente da primeira quote deste escritor. parece ser muito interessante, tenho de procurar alguns livros dele!