quinta-feira, abril 24, 2014

Umberto Eco x Dan Brown



Certa feita, li uma matéria que filiava os romances de Dan Brown ao gênero "suspense erudito",  inaugurado por Umberto Eco com O Nome da Rosa. Eu não podia apoiar ou refutar essa afirmação porque ainda não tinha lido nada da ficção de Eco. Como li recentemente O Nome da Rosa e Inferno, de Brown, essa comparação se me saltou na memória e decidi perscrutá-la brevemente por escrito aqui no blog. Apesar de ter lido um único romance do Eco, parece-me que a semelhança entre esses autores se limita à citação e à descrição de obras de arte em suas narrativas. De modo geral, vejo mais diferenças que proximidades entre os dois escritores.

Para começar, os romances de Dan Brown (li Anjos e Demônios, O Código Da Vinci, O Símbolo Perdido e Inferno) são fáceis, ágeis, assemelham-se a roteiros de cinema, com capítulos encerrando invariavelmente na antessala do clímax. Tal recurso, repetido obsessivamente, deve cansar até o leitor mais preguiçoso, imagino. Para mim, foi a característica mais incômoda. Para fazer um contraponto, em O Nome da Rosa, o autor cria o manuscrito de um monge da Idade Média. O narrador faz inúmeras citações em latim sem tradução (por que ele traduziria se as pessoas letradas da época sabiam latim e se se tratava de escritos pessoais?), faz digressões imensas que em nada contribuem para o andamento da ação, antecipa fatos e crimes, diminuindo o suspense da história, faz piadas obscuras com temas medievais e filosóficos. Em resumo, Eco não está nem um pouco preocupado em facilitar as coisas para o leitor. Não há como a leitura ser fluida, ágil. Um leitor mais curioso e interessado terá de fazer seu dever de casa no google para saber do que o narrador está falando.

Pondo assim, parece que a leitura de O Nome da Rosa me causou verdadeiros transtornos, mas não é verdade. A estrutura diarística dá realismo à trama, assim como as citações, porque nos insere tanto quanto possível na atmosfera da época narrada.

Outro problema nos romances de Brown é que ele é inverossímil de um modo não interessante. Robert Langdon, o protagonista dos romances que li, sempre age na investigação dos mistérios acompanhado de personagens inteligentes: criptologistas, cientistas, médicas superdotadas. Apesar disso, é sempre Langdon quem desvenda os detalhes importantes do crime. Mulheres de intelecto tão pronunciado poderiam ter um desempenho mais relevante que o de meras "ajudantes de mágico", com quem Langdon desenvolverá um laço afetivo. E eis, novamente, uma fórmula que destitui os livros de originalidade. 

A imaturidade de Langdon é outro exemplo de inverossimilhança capenga dos textos. Não consigo acreditar que um professor de história da arte, na casa dos cinquenta, uma pessoa experiente, consultor em casos de crise internacional, possa ter reações tão histéricas e esfuziantes quanto as de um adolescente do ensino médio.

"Ele virou ainda mais o paletó para revelar o forro próximo da nuca, Ali, escondido de forma discreta, havia um bolso grande, feito com esmero.
Que droga é essa?!" (Dan Brown. Inferno)

Não direi que Eco não incorra em um ou outro exagero ou absurdo, especialmente quando se considera que  O nome da Rosa narra a investigação do assassinato em sequência de sete monges em uma abadia beneditina por um frade franciscano e ex inquisidor. Ocorre que no romance de Eco há muita intertextualidade, diversas alusões a romances policiais icônicos, brincadeiras com o absurdo borgeano (não por acaso um dos personagens se chama Jorge de Burgos e é cego), revisões e ironias com as teses de Tomás de Aquino, argumentações filosófico-literárias a partir de Santo Agostinho. O livro de Eco é uma grande brincadeira intelectual, feita por um renomado estudioso e escritor. É um romance abusado e corajoso porque desconsidera quem está fora desse contexto artístico-filosófico (mas que ainda assim se tornou best-seller). 

"Fragmentos da cruz vi muitos outros, noutras igrejas. Se todos fossem autênticos, Nosso Senhor não teria supliciado sobre duas hastes cruzadas, mas sobre uma floresta inteira" (Umberto Eco. O Nome da Rosa)

Antes que me acusem de esnobismo intelectual, devo dizer que só identifiquei certas discussões do romance porque meu namorado é especialista em Filosofia Medieval, já tivemos conversas sobre o assunto e  já li alguns de seus artigos. Logo, quando algo me soava obscuro demais ou atiçava tanto a minha curiosidade que eu não podia simplesmente prosseguir sem saber do que se tratava,  recorria a ele, e também ao google, quando ele não sabia do que se tratava ou não estava presente.

No que diz respeito à parte "erudita" do gênero, parece-me que ela se apresenta de modo diverso nesses autores. Enquanto Langdon faz longas descrições introdutórias — que até aprecio, considerando-as um ponto positivo em seus livros — , Eco as apresenta como se o leitor já estivesse plenamente familiarizado com as teorias e debates discutidos. Gosto de receber novas referências com a leitura dos livros de Brown, mas esses momentos mais informativos, não raro, interrompem a ação como se fossem parênteses narrativos. E parece claro, pela estrutura de seus romances, que ele busca desenvolver uma narrativa de ritmo acelerado — o que já não seria o caso de Eco. O Nome da Rosa é um livro cheio de excessos, discursos, divagações, reflexões e disputas argumentativas. Isso tudo, juntamente com as menções aos objetos artísticos e literários, é orgânico no texto. Não soam como interrupções para instruir o leitor.


Comparações entre esses autores ocorrem desde o lançamento de O Código Da Vinci, quando Dan Brown foi acusado de plagiar ou de se "inspirar fortemente" em O Pêndulo de Foucault. Como não li esse último, não posso me manifestar. Eco disse numa entrevista que Brown parecia um de seus personagens, que parecia cria sua porque embarcava nas teorias conspiratórias em vez de incitar o leitor perceber que elas eram falsas.

Feitos esses apontamentos, devo dizer que se tratam de reflexões iniciais, primeiras impressões sem a pretensão de encerrarem o debate. Parece-me que Dan Brown pode ser enquadrado, satisfatoriamente, na categoria mais genérica de suspense. Seus livros atuam como um híbrido de divertimento desopilante e catálogo de referências (li quatro de seus livros, alguma graça eles me têm). O efeito estético obtido da leitura de seus livros está aparentado (mas de modo algum igualado, dadas as especificidades inerentes dos meios) com a experiência de assistir a filmes de suspense. Cria expectativa, surpreende com suas reviravoltas mirabolantes, atiça a curiosidade quanto à revelação do criminoso (curiosamente, O Código Da Vinci não funcionou como adaptação para o cinema). No entanto, não passa incólume por um leitor mais experiente, que há de notar-lhe as fraquezas.

Em O Nome da Rosa, por sua vez, há, além do enredo instigante, requinte narrativo, uma preocupação real com a escrita e o convite para um jogo intelectual entremeado de intertextualidade. É um romance rico porque inteligente, irônico, sarcástico, intenso, bem humorado. Se diverte ou proporciona prazer ao leitor, é em decorrência da superação dos desafios que propõe.

"Tive a impressão de que Guilherme não estava de modo nenhum interessado na verdade, que mais não é que a adequação entre a coisa e o intelecto. Ele, pelo contrário, divertia-se a imaginar o maior número de possíveis que fosse possível. Naquele momento, confesso, desesperei do meu mestre, e surpreendi-me a pensar: 'Ainda bem que chegou a Inquisição.' Tomei partido pela sede de verdade que animava Bernardo Gui." (Umberto Eco. O Nome da Rosa)

Adoraria que essa reflexão propiciasse um debate mais detido. Quem sabe algum de vocês leu esses romances e quer deixar seu pitaco nos comentários? Ou ainda, quem leu apenas um dos dois autores poderia dar a sua opinião, comentar ou criticar minhas observações. Sintam-se convidados.

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*O romance Inferno foi-me cedido gentilmente pela editora Arqueiro.

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